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sábado, 14 de novembro de 2020

O sectarismo da oposição de esquerda contra o PT

Texto publicado em alguma comunidade do Orkut em 12 de junho de 2011

Há uma diferença grande entre a crítica política qualificada e o sectarismo irracional e desinformado. A primeira, sempre acrescenta, venha de onde for. A segunda, venha de onde for, para nada serve, só atrapalha. O trotskista argentino, Nahuel Moreno, diz em seu livro “Problemas de Organização”: “Para avançar pelo caminho que nos propomos, temos um grande obstáculo: nosso sectarismo.” E assevera: “Ser sectário de um partido de milhões de votos e dezenas de milhares de ativistas é grave, porém muito mais compreensível. Porém, ser sectários de um partido com uns poucos milhares e que, no entanto, não tem influência de massas, é uma tragédia.” 

A oposição de esquerda espera tanto quanto a de direita pelo fracasso do governo Dilma. Mantém a mesma expectativa que alimentou durante todo o governo Lula. Lembro de ter recebido e-mail de um companheiro do PSOL festejando os possíveis impactos da crise econômica mundial no Brasil e por tabela na alta popularidade do então presidente. Teriam afinal um discurso e alguém disposto a ouvi-lo, a massa trabalhadora insatisfeita. Pois a crise afetou o Brasil muito menos do que imensa maioria dos países do mundo e rapidamente foi embora. A popularidade de Lula manteve-se intacta. E por uma razão óbvia. Os trabalhadores não se sentiram atingidos, ou se sentiram, entenderam que a crise veio de fora e que as medidas adotadas pelo governo foram as mais adequadas para enfrentá-la. 

A oposição de esquerda precisa ouvir o que dizem os trabalhadores antes de despejar sobre eles o seu discurso vazio, raivoso e amargurado. Dialogar é falar sobre o que se ouve. Se continuar assim, apenas torcendo pelo fracasso do governo, negando valor ao que tem valor evidente e sem apresentar alternativas ao que haja de errado, a oposição de esquerda vai continuar isolada e sem perspectiva real de crescimento. O Brasil precisa de uma oposição de esquerda forte. Mas não vai ter se a oposição de esquerda continuar com a postura sectária que tem tido em relação ao PT. Vejam bem: radicalismo não é o mesmo que sectarismo. O radical dialoga, o sectário, não. Porque o diálogo, que pretende persuadir e não derrotar, exige que se tenha tolerância. Tolerância para ouvir e contestar os argumentos de que se discorda, demonstrando as suas inconsistências, e não ignorando o que o interlocutor tem a dizer e o cobrindo de insultos. Quem não dialoga não convence ninguém. E acaba ficando sozinho.

Silvio Melgarejo

12/06/2011

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Porque o impeachment de Dilma deve ser considerado golpe.

Ainda há quem questione, inclusive no campo da esquerda, se o impeachment de Dilma foi ou não foi golpe de Estado. A alguns destes, que encontrei no Facebook, expliquei da seguinte forma:
“54 milhões de brasileiros elegeram Dilma pelo voto direto. Dilma foi deposta ao fim de um processo de impeachment que não atendeu à exigência constitucional de comprovação de autoria de crime de responsabilidade. O impeachment, portanto, foi ILEGAL. Trata-se, por conseguinte, de um golpe de Estado, por ter sido a derrubada de uma governante por setores do próprio Estado, através de meio alheio às normas legais e constitucionais que regem os processos de impeachment. O apoio social conquistado pelo marketing golpista, por mais expressivo que tenha sido, não torna o golpe menos golpe. Se assim fosse, deveríamos chamar de Revolução ao GOLPE de 64, como fazem até hoje os apoiadores saudosos da ditadura que então se estabeleceu. O golpe de 64 também teve a sua base social de apoio. E nem por isso a história deixa de considerá-lo golpe.”

domingo, 4 de setembro de 2016

Moral da História: Não confie na burguesia, sua mídia, seus partidos e seu Estado.

Se as derrotas mais perturbadoras e dolorosas são as que nos pegam de surpresa, não se pode dizer que seja o caso da derrota que sofremos, com o golpe de Estado que acaba se dar no Brasil. Desde o 17 de abril, em que a Câmara aprovou a admissibilidade da abertura do processo de impeachment, sob o olhar absolutamente indiferente da imensa maioria dos trabalhadores, a deposição de Dilma já se afigurava como o resultado mais provável do julgamento que se daria. Não pegou de surpresa à esquerda, portanto. No fundo das nossas almas aflitas, por impotentes, todos sabíamos que assim terminaria. Não foi qual morte súbita, foi como a morte depois de uma doença prolongada. Por isso há dor, mas não perplexidade que nos paralise e é bom que não haja, porque as batalhas mais duras ainda estão por vir e não tardam a explodir na nossa porta.

Dói a derrota, dói demais, mesmo assim, mesmo não sendo surpresa. Mas é preciso lembrar que estamos numa guerra, que continua porque persistem as razões que lhe originam, que são as injustiças produzidas pelo capitalismo. Perdemos uma batalha importante, o inimigo nos tomou uma posição estratégica, a presidência da república, e não o fez senão para, a partir dela, desencadear uma violenta ofensiva, cujos objetivos já vem sendo anunciados desde 2015, quando foi lançado o programa “Uma ponte para o futuro”, pelo PMDB. A burguesia, que encomendou e patrocinou o golpe, tem pressa de ver este programa implementado. Por isso não há tempo a perder, é preciso avaliar rapidamente as razões do revés que sofremos, afim de iniciarmos de modo adequado os preparativos para o combate que em breve se fará necessário.

Se o resultado de qualquer disputa decorre da interação das forças antagonistas, à eficácia dos movimentos executados pela direita para realizar o golpe, corresponde diretamente a ineficácia dos movimentos executados pela esquerda para neutralizá-los. Nós perdemos a batalha do impeachment porque cometemos erros que nos fragilizaram imensamente perante a direita e possibilitaram o seu avanço e triunfo. E o maior de todos os erros, do qual decorre a maior parte dos outros, foi confiarmos de modo irrestrito na burguesia e nas instituições do Estado que ela controla. Por confiarmos, não nos armamos para a luta e, por desarmados, não pudemos reagir quando atacados. Faltou-nos um partido de massas militante e organizado, como aquele que o PT propôs-se a ser quando fundado, e faltou-nos uma mídia própria, de alcance nacional, para disputarmos a opinião pública com a direita e mobilizarmos os trabalhadores para o confronto com a burguesia.

Renunciamos à construção deste partido e à criação desta mídia porque fomos tomados pela ilusão de ser possível reformar o capitalismo e melhorar a vida do povo apenas através das disputas no campo institucional da política, regidas pelo ordenamento legal e constitucional do país. Pior: associamo-nos a partidos de direita, adotamos o modo burguês de fazer política e fizemos acordos econômicos que foram sempre muito mais vantajosos para os ricos do que para os pobres. Tudo na vã esperança de satisfazer ao mesmo tempo às expectativas de burgueses e trabalhadores sobre o nosso governo e evitar que eles entrassem em conflito entre si e conosco. Agimos como pelegos. Desprezamos a História, que ensina, através de mil exemplos, que a burguesia é por demais gananciosa e só respeita acordos, leis e constituições enquanto lhe convém. Traímos nossos mais caros princípios, renunciamos ao socialismo e à mobilização social como meio de transformação da sociedade, rebaixamos até não mais poder nosso programa de governo e nosso padrão de exigência ética, e acabamos traídos por aliados circunstanciais que sempre foram mercenários a serviço da burguesia, sem poder contar com a solidariedade dos trabalhadores, de quem, merecidamente, perdemos a confiança.

E se o golpe não foi surpresa, muito menos poderá sê-lo a rápida instalação no país de um regime autoritário. Porque, como venho alertando desde março, o programa de governo dos golpistas é simplesmente irrealizável num regime democrático, em razão das fortes reações que tende a provocar na sociedade, por seu conteúdo radicalmente antinacional e antipopular. Para que este programa seja implementado é preciso que as reações a ele sejam desencorajadas ou sufocadas. O governo Temer nasce com este propósito e já é, de fato, uma ditadura envergonhada, como foi, segundo o jornalista Elio Gaspari, a ditadura militar nos seus primeiros anos. Os militares e seus apoiadores civis chamavam o golpe de 64 de revolução democrática e sempre autodefiniram-se como defensores da democracia. Temer e os seus dizem já e dirão sempre exatamente o mesmo, enquanto preparam fuzis e porões para inibir ou esmagar a resistência realmente democrática e a reação cidadã ao roubo das riquezas do país e dos direitos dos trabalhadores.

A ilusão de um país capitalista sem luta de classes, alimentada por Lula, Dilma e a maioria dos dirigentes do PT durante 13 anos, desfaz-se agora, de forma trágica, sob a luz da realidade revelada pelo golpe e pela ditadura que o golpe origina. O golpe e a ditadura não são de Temer, Aécio, do PMDB ou dos tucanos. O golpe e a ditadura são da burguesia. Os políticos e partidos são meros agentes. A disputa política no Brasil não pode ser mais vista e tratada, portanto, como se fosse apenas uma briga entre partidos. Está mais claro do que nunca que é e sempre foi uma briga entre as  classes sociais, uma que oprime, outra que é vítima e resiste à opressão. A partir de agora, é sob esta perspectiva que deve ser encarada a luta política no Brasil. Tem que ser trabalhador contra burguês, sem arrego e sem trégua, nas urnas e nas ruas, nas cidades e no campo.

O PT, derrotado pela própria ilusão, continua sendo, não obstante, o único partido de massas da esquerda e, por isso mesmo, o partido que mais pode contribuir com a luta pela redemocratização do país. Desde, é claro, que saiba tirar da experiência vivida as devidas lições. E a mais importante lição que os petistas podem tirar dos 13 anos de governo do PT e do golpe de 2016 é que os trabalhadores não devem confiar jamais na burguesia, na mídia e nos partidos que a burguesia sustenta e nas instituições do Estado que a burguesia controla. Um novo PT precisa surgir a partir deste golpe e tem que ser um partido que assuma, pra valer e de uma vez por todas, o ideal socialista proclamado nas resoluções dos seus congressos e encontros nacionais, reassumindo definitivamente o seu compromisso histórico original de manter total independência política em relação à burguesia, para melhor combatê-la. Se a conciliação com a burguesia nos trouxe até onde estamos, com o Brasil governado por uma gangue, sob um regime autoritário, só a confrontação com a burguesia poderá restabelecer a democracia, ampliá-la e aprofundá-la, abrindo caminho para o início de um processo de transformações radicais na sociedade, a partir das demandas populares, que conduza o país ao socialismo. Confiar na burguesia, nunca mais! Esta é a firme decisão que devem tomar os petistas depois do golpe de 2016.

Mas houve um outro erro que a mim parece ter sido decisivo para a derrota da esquerda na batalha do impeachment, que foi o total desprezo pelas circunstâncias reais da disputa política na definição da sua estratégia de luta. Quando mais de 60% dos trabalhadores diziam em abril, através das pesquisas de opinião, que queriam a antecipação da eleição presidencial, porque não queriam nem Temer, nem Dilma no governo, estava mais do que claro que a antecipação da eleição era a única bandeira capaz de mobilizá-los. A maior parte da esquerda, no entanto, negou-se a empunhar esta bandeira, por medo de enfrentar uma eleição e ser derrotada e por medo de perder o discurso de denúncia do golpismo da direita. Assim, para evitar o confronto com a direita no campo de batalha que mais favorece à esquerda, que é o campo do debate público sobre programas de governo, exigido pelos trabalhadores nas campanhas eleitorais, e para não perder um discurso que pouco valor teve, tem e terá como fator de mobilização social, renunciamos ao uso da única estratégia capaz de evitar que o golpe se consumasse e a ditadura se instalasse. Pois o golpe se consumou, a ditadura se instalou e só agora aquela maioria da esquerda, PT à frente, resolve defender a antecipação da eleição presidencial.

Ontem foi divulgada uma pesquisa Ibope, dando conta de que 31% dos brasileiros consideram o governo Temer ruim ou péssimo e que 38% o consideram regular. Apenas 13% o consideram bom ou ótimo. Os 38% que avaliam o governo Temer como regular, expressam na verdade a esperança desta parcela da população de que o atual governo seja melhor do que o anterior. Apenas esperança, já que mal começou a experiência das massas com o governo Temer. Quando os efeitos das medidas que tem sido anunciadas chegarem no chão da sociedade é que haverá, com toda certeza, uma substancial transferência dos que consideram o governo regular para a coluna dos que consideram o governo ruim ou péssimo, nas pesquisas. Temer tende a ser realmente um presidente extremamente impopular. Mas não por ser golpista, porque para a imensa maioria dos trabalhadores, isto não faz a menor diferença. Ele será impopular porque seu governo é antipopular e notoriamente corrupto, por isso o povo já começa a rejeitá-lo. Verdade que o fato de ser golpista legitima a sua derrubada imediata, antes do pleito de 2018, perante os setores da sociedade, especialmente da classe media, que sabem o que é um golpe de Estado e que têm uma consciência democrática mais desenvolvida. Mas o que mobilizará as massas, mesmo, não será, como não tem sido até agora, a rejeição ao golpismo, e sim a rejeição à corrupção, ao entreguismo e, sobretudo, ao desemprego, arrocho salarial e corte de direitos que ainda estão por vir.

A estratégia de defesa do emprego, salário, direitos, da soberania nacional e da antecipação da eleição presidencial, que poderia ter evitado a consumação do golpe, é agora, sem dúvida nenhuma, o melhor caminho para a derrubada do governo Temer e restabelecimento da ordem constitucional no país. A esquerda finalmente começa a falar a língua do povo e sobre o que ao povo interessa. Unificada e unida ao centro democrático com uma estratégia de elevado potencial de mobilização social, faltam-lhe agora apenas os meios para realizar esta estratégia, que são um partido militante de massas e uma mídia própria de alcance nacional. Este partido e esta mídia precisam urgentemente ser construídos, porque, sem eles, nenhuma estratégia de luta é viável, por mais acertada e promissora que seja e por maior que seja o empenho e combatividade dos que se dedicarem à sua execução. Não basta estabelecer objetivos e ações para alcançá-los, é preciso dispor dos meios necessários para realizar estas ações. Senão o plano fica no papel ou, quando muito, será mal executado.

Silvio Melgarejo

04/09/2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Debate sobre o post "Por eleição, o povo já teria abortado a ditadura". (II)

O debate sobre meu texto "Por eleição, o povo já teria abortado a ditadura", que fazia no Facebook em 16 de agosto com o companheiro Beto Mafra, continuou naquele dia e aqui o registro.

Disse o companheiro Beto Mafra:
Vamos concordar numa coisa. QUALQUER solução futura terá de ser forçosamente com ampla e irrestrita participação popular, sob o comando da presidenta Dilma, a ÚNICA com legitimidade suficiente para dar base a uma iniciativa. por isso, para não perder esse foco, tenho me recusado a qualquer conjetura a respeito do "pós golpe". Em um estado de normalidade constitucional tudo é possível. Portanto, FORA TEMER e VOLTA DILMA, para não corrermos o risco de outro golpe dentro do golpe. Abraço.
Eu lhe respondi:
Não é solução futura, Beto Mafra. Aliás, não seria, porque agora já perdeu viabilidade. A campanha pela antecipação da eleição seria uma mobilização por algo que aconteceria depois do desfecho do processo de impeachment, mas que teria influencia imediata sobre a evolução do próprio processo. E como se daria esta influencia? Através da ampla e intensa mobilização popular que esta proposta tem potencial para provocar, como demonstram as pesquisas.

"A ampla e irrestrita participação popular", que você cita, não é condição para a solução, é a própria solução. Só que o "Fora Temer, Volta Dilma" e o discurso sobre a legitimidade não convencem a maioria da classe trabalhadora e não a empolgam a participação nenhuma. Não é possível que você e os demais até hoje não tenham se dado conta disso. O golpe só chegou onde está porque a resistência democrática foi e tem sido fraca. E a resistência democrática foi e tem sido fraca porque a esquerda escolheu uma estratégia que não mobiliza a maioria do povo.

Em um estado de ANORMALIDADE constitucional, como o que teremos depois que o golpe se consumar, muito menos poderá ser feito pela esquerda do que tem sido possível até agora, Beto Mafra. O que nós não fizemos até agora, muito dificilmente teremos condições de fazer depois, quando estivermos sob uma ditadura.

Pense bem, companheiro. Por que você acha que Globo, Estadão, Folha, Temer, Jucá, Alckmin e agora Gilmar Mendes, são tão contrários à antecipação da eleição presidencial e até mesmo ao plebiscito sobre ela? Você não acha estranho defender a mesma posição que eles, embora por razões diversas? Não te passa pela cabeça que eles podem estar certos e você errado?

Um abraço.
Beto Mafra disse:
O que tenho visto é que, por falta de direção das esquerdas, no tocante às prioridades, estamos todos batendo cabeça sem chances de um mínimo de consenso. seria, sim, essa chamada feita pela liderança do governo, o que seria um cavalo de pau nas pretensões golpistas do vice e seus asseclas. Prometo refletir mais a fundo e mudar minha postura, se eu me convencer. O problema maior tem sido "combinar com os russos" e implementar uma bandeira que seja aglutinadora e eficaz para efeito de mobilização. Mas... acho que o tempo até para isso nós perdemos por falta de iniciativa. Já penso em como fazer oposição à canalha bandida que usurpou nosso estado de direito.
Eu respondi:
Eu também. Mas, com os "russos" a gente não tem que combinar nada, tem é que dar combate. A gente tem combinar é com a classe trabalhadora, isso é o que faltou e tem faltado nessa história toda, a esquerda combinar com a classe.
Beto Mafra retrucou:
Rirrirri... "Combinar..." foi retórico, pelo descompasso. eles tiveram 13 anos para armar o bote enquanto a gente cantava as maravilhas do novo país que aparecia sob a direção democrática e popular sem a consequente vinculação aos novos atores emersos da miséria, bem como o aprofundamento de nossos vínculos históricos com a classe trabalhadora. Os "russos" citados são os beneficiados pelas nossas políticas que se uniram ao berreiro puxado pela mídia e pelo púlpito.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Debate sobre o post "Por eleição, o povo já teria abortado a ditadura". (I)

Divulgado na lista de e-mails do 1º Diretório Zonal e no Facebook, o texto "Por eleição, o povo já teria abortado a ditadura", postado ontem neste blog, recebeu dois comentários no grupo da tendência petista Articulação de Esquerda, no Facebook. Registro aqui as respostas que lá publiquei.

O companheiro Beto Mafra disse:
[Pro]por eleição, com as esquerdas divididas e a base militante atônita por falta de direção, com os meios de comunicação homogeneamente funcionando como porta vozes dos golpistas, seria a vitória "legítima" do discurso das ratazanas movidas pelas forças fascistas dos púlpitos dos parasitas da fé. Não concordo com essa temeridade (com raiva do trocadilho embutido), que a solução "democrática" fosse solução onde as instituições de Estado foram tomadas por ratazanas. Deveriam ser tratadas como tal.
Eu lhe respondi:
Beto Mafra. Os problemas da esquerda que você cita já estavam presentes nas eleições de 2006, 2010 e 2014 e, no entanto, Lula e Dilma venceram. E o que garantiu a vitória da esquerda nestas eleições? A minha convicção é de que foi o confronto de programas de governo no debate público das campanhas. Nas campanhas presidenciais este debate sempre tem favorecido à esquerda, mesmo nos cenários mais adversos, pela razão evidente de que os programas de governo da esquerda respondem muito melhor às demandas e expectativas da classe trabalhadora dos que os programas da direita. 

A tendência natural, pelo conteúdo dos programas de governo, é a esquerda sempre levar vantagem sobre a direita no debate público programático que as campanhas impõem nas eleições presidenciais. Por isso é que direita foge deste debate, buscando abrigo em geral na pauta da corrupção. Mas, não consegue se esconder, porque o povo quer saber o que vai acontecer com  salário e emprego, como vão ser tratadas as questões da educação, da saúde, etc. E todos nós sabemos qual é o tratamento que estas questões têm nos programas de austeridade da direita. Por isso a direita precisa do golpe, para tomar o poder, sem precisar passar pelo debate público  sobre programas de governo, que as eleições impõem. 

Isto, que a maior parte da esquerda não enxerga, para mim parece óbvio. Mas, mesmo que não fosse, ainda se tem a confissão de uma das mais importantes lideranças golpistas. Em 26 de maio foram divulgados trechos das gravações feitas por Sérgio Machado para serem usadas na sua delação premiada. Numa das conversas gravadas, Romero Jucá conta a Machado como convenceu o PSDB a apoiar o golpe. O PSDB, até então, queria esperar o julgamento das contas de campanha da chapa Dilma-Temer, porque pensava em disputar, com Aécio, Serra ou Alckmin, a eleição que fosse convocada, caso as contas fossem reprovadas e a chapa impugnada. Jucá conta qual foi o argumento que usou para convencer os tucanos de que o melhor para os tucanos seria eles apoiarem o impeachment de Dilma e a posse de Michel Temer como presidente da república. Disse Jucá, na gravação divulgada pela imprensa:

Falar com o Tasso, na casa do Tasso. Eunício, o Tasso, o Aécio, o Serra, o Aloysio, o Cássio, o Ricardo Ferraço, que agora virou psdbista histórico. 
Aí, conversando lá, que é que a gente combinou? Nós temos que estar junto para dar uma saída pro Brasil (inaudível). E, se não estiver, eu disse lá, todo mundo, todos os políticos (inaudível), tão f***, entendeu?  

Porque (inaudível) disse: 'Não, TSE, se cassar...'. 

Eu disse: 'Aécio, deixa eu te falar uma coisa: se cassar e tiver outra eleição, nem Serra, nenhum político tradicional ganha essa eleição, não. (inaudível) Lula, Joaquim Barbosa... (inaudível) 

Porque na hora dos debates, vão perguntar: 'Você vai fazer reforma da previdência?' 

O que que que tu vai responder? Que vou! 

Tu acha que ganha eleição dizendo que vai reduzir aposentadoria das pessoas? 

Quem vai ganhar é quem fizer maior bravata. E depois, não governa, porque a bravata, vai ficar refém da bravata, nunca vai ter base partidária...' (inaudível) Esqueça!
No dia seguinte a esta conversa entre lideranças do PSDB e PMDB, o PSDB anunciou que "caminharia junto como PMDB" pela aprovação do impeachment. 
Olha, Beto Mafra, o que eu vejo é que a esquerda tem tanto medo de eleição quanto a direita. E se os dois lados têm medo, eu só posso deduzir que um tem razão e o outro tá vendo fantasma. Para mim, a direita tem razão para ter medo de eleição. O Romero Jucá disse tudo. Agora, a esquerda, não tem razão nenhuma, está com medo de encarar riscos que não existem.


***

Sobre o seguinte trecho do seu comentário:
Não concordo com essa temeridade(com raiva do trocadilho embutido), que a solução "democrática" fosse solução onde as instituições de Estado foram tomadas por ratazanas.
O equívoco, seu e dos demais opositores da proposta de antecipação da eleição, é considerar esta estratégia como uma solução institucional. Não é. A solução é a mobilização social que a proposta tem potencial para provocar. Veja o que eu digo no meu texto:
Desde abril, as pesquisas de opinião vinham indicando que a única bandeira com potencial para mobilizar a maioria da classe trabalhadora, permitindo a criação de uma barreira social de contenção contra o avanço do golpe, seria a bandeira da antecipação da eleição presidencial ou, pelo menos, da convocação de um plebiscito que dela tratasse.
A eleição poderia nem acontecer. Mas a mobilização social que a defesa da eleição tem potencial para provocar, por corresponder ao desejo da maioria dos trabalhadores, seria muito maior e mais eficaz para derrotar o golpe do que todas as manifestações convocadas até hoje, pautadas pela simples denúncia e repúdio ao golpe e defesa da democracia. 
A melhor estratégia para a esquerda será sempre a estratégia que mais tem potencial para mobilizar as massas para a defesa dos seus objetivos. Se o principal objetivo do golpe é a tomada do poder, derrotar o golpe é impedir a tomada do poder. E a melhor maneira de impedir a tomada do poder através deste golpe seria uma campanha de massas pela antecipação da eleição. 
Por isso, todos os agentes do golpe são contrários à antecipação da eleição, há várias declarações e editoriais de jornais da direita expressando esta posição, dizendo, inclusive, que a antecipação da eleição, sim, é que seria golpe. 
E o mais bizarro desta história toda é que a esquerda, por razões diferentes, mas com a mesma intensidade que a direita, se opõe à antecipação da eleição. E ninguém vê nada de estranho nisso. E aí eu me pergunto: onde é que essa rapaziada está com a cabeça?
Um abraço, companheiro.
***

O companheiro Eduardo Nunes Loureiro disse:
Posso estar redondamente enganado. Mas, como diz o Belchior, "eles venceram e o sinal está fechado para nós". Apesar de não sermos mais jovens (eu, ao menos, não sou), isso deve ser levado em consideração, até para que possamos elaborar estratégias para o próximo período.

Não adianta a gente ficar colocando a culpa na sintonia fina. O que ocorreu foi uma brutal ofensiva da direita, potencializada por erros grotescos nossos, como praticamente se divorciar da base que nos elegeu em 2014 com as medidas que dissemos que seriam utilizadas pelos inimigos - medidas estas que não arrefeceram os ânimos da direita e desmobilizaram aqueles que elegeram Dilma. 

Não ter chamado plebiscito, não ter feito acordo com o Congresso, não ter uma posição unificada etc. são mais consequências dos erros anteriores que sua causa. O momento é de autocrítica, contar os mortos, lamber as feridas e arregimentar forças para continuar lutando. Se a gente continuar dando murro em ponta de faca como tem sido feito desde o dia 17 de abril, as chances de continuarmos nos perdendo e nos desorientando são ainda maiores.
Minha resposta:
Eduardo Nunes Loureiro. Os erros que cometemos nos trouxeram à batalha do impeachment, mas não condicionaram as escolhas e decisões que tomamos nesta batalha, nem estabeleceram que o único desfecho possível desta batalha deveria ser a nossa derrota. Nós poderíamos ter vencido a batalha do impeachment, se ao longo dela tivéssemos feito as escolhas estratégicas certas. Erramos e persistimos no erro, apesar de o erro estar evidente, dando, como você disse, murro em ponta de faca desde o 17 de abril. Nem parecia que queríamos realmente derrotar o golpe. 

O balanço da guerra se faz a partir do balanço das batalhas e esta batalha do impeachment não é qualquer batalha, uma batalha à qual se possa atribuir peso desprezível no balanço da guerra contra a burguesia. O golpe arma ainda mais a burguesia e desarma a classe trabalhadora. Se tem sido brutal a ofensiva da direita contra o PT e o governo Dilma desde 2015, muito mais brutal ainda será a ofensiva que fará a partir de agora contra a classe trabalhadora e o conjunto da esquerda. Não é qualquer derrota que estamos sofrendo e exatamente por ser uma derrota importante é que exige um balanço sério e imediato, com vistas às próximas batalhas.

Minha avaliação, muito sucintamente, é que a esquerda sai derrotada deste processo golpista porque trocou o oportunismo pelo esquerdismo. E se não conseguir se livrar de uma coisa e de outra vai ser derrotada de novo, de novo e de novo. É isso.

Um abraço, companheiro.
Agradeço os comentários de Beto e Eduardo, que me deram oportunidade de esclarecer meu ponto de vista e avançar na minha reflexão.

domingo, 14 de agosto de 2016

Por eleição, o povo já teria abortado a ditadura.

Imperam o cinismo e a hipocrisia nas instituições do Estado e na imprensa corrupta da direita, enquanto na esquerda reina a angustia impotente pela iminência da consumação do golpe e instalação da ditadura. A sensação geral é de que o jogo está decidido e que só um milagre pode evitar o impeachment de Dilma. O golpe, ao que tudo indica, está dado, a direita vence e vence com enorme facilidade, porque a resistência da esquerda foi pífia. Foi fácil, fácil demais nos derrotar e isto é que é o mais preocupante. Porque uma ditadura é bem mais difícil de ser vencida do que um golpe, ainda mais parlamentar.

Resulta, a meu ver, este desfecho melancólico, com suas trágicas perspectivas de desdobramentos, de um gravíssimo erro de estratégia da esquerda. Desde abril, as pesquisas de opinião vinham indicando que a única bandeira com potencial para mobilizar a maioria da classe trabalhadora, permitindo a criação de uma barreira social de contenção contra o avanço do golpe, seria a bandeira da antecipação da eleição presidencial ou, pelo menos, da convocação de um plebiscito que dela tratasse. O erro da esquerda foi desprezar inteiramente este dado da realidade na definição da sua estratégia. E o fez porque tinha, claramente, como objetivo, antes a preservação do que passou a chamar de "discurso do golpe" do que efetivamente derrotar o golpe. A esquerda não estabeleceu uma estratégia para derrotar o golpe, mas uma estratégia para não perder o tal "discurso do golpe". E não perdeu mesmo. Só que o golpe venceu.

O que a esquerda até hoje não entendeu é que a direita sempre quis não só o golpe, mas também uma ditadura, porque o programa de governo que ela defende, a mando da burguesia, é um programa que é não só impossível de ser aprovado numa eleição, como impossível de ser implementado num regime democrático, em razão das fortes reações que tende a provocar na sociedade. A direita precisa de uma ditadura exatamente para inibir ou esmagar estas reações que prevê, assim como precisa do golpe para tomar o poder e assenhorear-se dos meios necessários para estabelecer a ditadura.

A esquerda subestimou a direita. Ou iludiu-se achando que a direita tinha aceitado a democracia ou enganou-se acreditando que a direita não teria coragem de avançar do golpe à ditadura. E, no entanto, era lógico que o faria, porque não teria sentido tomar o poder de forma antidemocrática, com objetivos tão bem definidos, para submeter-se a governar de forma democrática, inviabilizando a realização destes objetivos. A esquerda subestimou a vontade e a capacidade da direita de dar o golpe e criar a ditadura e agora subestima a própria ditadura, avaliando que ela não terá força para se sustentar durante muito tempo. Em 64, ninguém também imaginava que a ditadura durasse 20 anos, muita gente até se preparava para as eleições de 65 e as eleições não vieram, canceladas por um ato institucional dos militares.

A força da ditadura que será inaugurada por Michel Temer, mas que poderá a qualquer tempo passar a ser comandada por outros gerentes, estará exatamente no pacto de unidade da burguesia em torno do programa de governo que vem sendo anunciado. Tem tudo para ser um regime forte e muito difícil de ser vencido, exatamente pelo controle quase absoluto que a burguesia tem do Estado e dos grandes meios de comunicação de massa. Por isso a meses eu venho defendendo a tese de que o objetivo principal do PT e do restante da esquerda deveria ser impedir a posse definitiva de Temer, mesmo que para isso fosse necessário sacrificar o restante do mandato de Dilma, com a antecipação da eleição presidencial. Mas aí diziam que isto legitimaria o golpe e que nos tiraria o discurso. Como, se o objetivo do golpe não é outro senão a tomada do poder e é exatamente a tomada do poder que se pretendia e poderia, efetivamente, evitar com a campanha pela antecipação da eleição ou pelo plebiscito?

Não entendo, além disso, porque se atribui tanto valor ao tal discurso do golpe. O discurso do golpe, que não convenceu a maioria mais pobre da classe trabalhadora a participar das mobilizações contra o impeachment, não salvará a esquerda das perseguições que se intensificarão contra ela a partir de agora, nem poupará a classe trabalhadora dos prejuízos imensos que terá, quando seus direitos começarem a ser realmente atacados. O discurso do golpe sempre teve e continua tendo um potencial de mobilização social limitadíssimo. As pessoas movem-se pelo que desejam e o que as massas querem hoje e já queriam desde abril é mudança, através da antecipação da eleição presidencial ou, melhor ainda, de uma eleição geral. De modo que mesmo que a defesa da antecipação da eleição ou do plebiscito legitimassem o golpe - algo que eu não acredito que aconteça -, a perda do discurso não representaria um prejuízo maior para a democracia do que a vitória efetiva do golpe, com a tomada do poder pela direita e instalação de uma ditadura no país.

Penso que o discurso do golpe é, na verdade, uma auto-consolação de quem admite e aceita a derrota, acreditando que da derrota poderá erguer-se com facilidade e fortalecido, por estar do lado certo da História. Estas pessoas não consideram o fato mais que evidente de que é muito mais difícil derrubar uma ditadura instalada do que uma ditadura em gestação, como a que temos agora. Havia, até bem pouco tempo, condições para abortar a ditadura de Temer, através da mobilização social pela antecipação da eleição presidencial. Mas, como as lideranças de esquerda recusaram-se a adotar esta estratégia, reduziram-se as perspectivas disso acontecer à possibilidade, mais que remota, de que o impeachment seja derrotado por um natural e súbito despertar das consciências de senadores ou ministros do Supremo.

Passou, infelizmente, da hora de se tentar transformar o anseio das massas por mudanças, através de eleições imediatas, em mobilização nas ruas capaz de influenciar decisivamente o julgamento do processo de impeachment. Não tendo sido alterados nem o pensamento e as disposições da maioria dos trabalhadores, nem a estratégia do movimento contra o impeachment, não se pode esperar que haja mudanças significativas no padrão qualitativo e quantitativo das manifestações de agora até 25 de agosto, data da decisão final do senado. Continuará a esquerda isolada da maioria da classe trabalhadora, simplesmente por insistir numa estratégia e discurso que não correspondem aos anseios e disposições que ela expressa. Estas mobilizações continuarão sendo insuficientes e não terão força para impedir que o impeachment seja aprovado. Resta a quem tem consciência da gravidade do momento por que passamos, torcer por um milagre no senado ou no STF e preparar-se para enfrentar tempos difíceis. É difícil acreditar que esta esquerda que foi tão facilmente derrotada pelo golpe, possa não de ser, também facilmente, subjugada pela ditadura que do golpe se origina. A menos, é claro, que consiga tirar as devidas lições da derrota que sofre. Oxalá isto aconteça.

Silvio Melgarejo

15/08/2016

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sem partido, nenhuma estratégia de luta é viável.

Sem mídia e sem partido, o petismo tem se mostrado absolutamente impotente para reagir aos golpes que tem sofrido na luta de classes. A força do ideal genuíno sucumbe à incapacidade flagrante de construir meios para lutar por sua realização efetiva. Construção exige trabalho e é tristemente irônico que faltem braços, como se constata, para construir o Partido dos Trabalhadores. O petismo até hoje não entendeu que sem meios adequados para a luta, todo combate termina em derrota e que se na guerra, o meio próprio para o combate chama-se exército, na política este meio é o partido. 

O petismo é uma nação de milhões que renunciou e segue renunciando à construção do seu exército, embora fale o tempo todo de luta. Só que retórica que não se materializa em ação de massas não basta para se conquistar e preservar democracia e direitos, muito menos para se fazer revolução socialista. Sem mídia e sem partido, milhões de petistas dispersos, como átomos soltos no espaço, não conseguem formar um corpo, mantém-se uns dos outros distantes, incomunicáveis, desorientados, impossibilitados de somar as energias que os mantém em permanente e solitária agitação para a realização de qualquer ação conjunta de impacto social e político equivalente à soma das forças de todos. Há uma vaga consciência geral de que isto ocorre, mas também um forte conformismo e o conformismo é uma atitude essencialmente conservadora.

Repito o que venho dizendo a alguns anos. O partido está para a luta política, assim como o exército está para a guerra. Não se atinge o objetivo político sem um partido, como não se atinge o objetivo militar sem um exército. O partido é o instrumento da ação política daqueles que o constituem para realizar algum projeto. Por isso eu considero que a construção do PT e a administração dos seus diretórios - que são as unidades combatentes do partido - devem ser as principais preocupações e as principais ocupações dos petistas e que descuidar destas tarefas é renunciar na prática a qualquer possibilidade de ver realizado o projeto petista de conquistar o poder político e construir no Brasil o Socialismo Democrático.

Tenho a mais absoluta convicção de que não é por falta de gente disposta a lutar que a resistência ao golpe não é maior do que tem sido. É por erros de estratégia das direções do movimento contra o impeachment, mas também e sobretudo por falta de um partido que organize e comande as ações da numerosa reserva militante petista, que sempre esteve pronta para o combate e nunca foi convocada, mantendo-se ociosa, à margem da luta. E esta reserva militante não foi e não tem sido convocada porque o PT, como organização, é uma ficção que só existe no estatuto e nas resoluções dos congressos e encontros nacionais do partido. Na vida real estes documentos são permanentemente ignorados. As direções partidárias não sabem o que é "trabalho de base", não sabem o que é "dever" e "disciplina", permitem e permitem-se negligenciar impunemente o cumprimento das obrigações mais elementares, razão pela qual, da maioria das instâncias, pode-se dizer, sem exagero, que são diretórios fantasmas.

O PT, como organização, não vive, apenas vegeta. É um corpo fragilíssimo, cuja alma tem sido a burocracia indisciplinada e negligente que o governa. O petismo, como doutrina, jaz, qual letra morta, no Estatuto e nas resoluções dos congressos e encontros. E o petismo, como movimento social, que deveria ser a verdadeira alma do PT como organização, não pode se-lo por estar fora do partido e do partido desvinculado, em razão da inatividade das instâncias em que poderia expressar-se e da surdez dos dirigentes, quando a eles se fala através de outros canais, como a internet. Há um verdadeiro abismo entre PT e petismo que precisa ser, em primeiro lugar, reconhecido pelos petistas para, depois, ser superado, afim de que o PT recupere sua vocação revolucionária original e seu potencial como agente transformador da sociedade.

O PT é uma organização e toda organização precisa cumprir 4 condições para alcançar seus objetivos. A primeira é definir as ações que realizará para atingir estes objetivos e os recursos que usará na execução destas ações. Isto se chama planejamento. A segunda é determinar o papel que cada membro do partido deve desempenhar nas ações planejadas e a forma como os meios necessários para a execução de suas tarefas serão distribuídos. Isto se chama organização. A terceira é a orientação e motivação de cada membro do partido no momento da execução de cada ação planejada. Isto se chama liderança, direção ou comando. E a quarta é a avaliação permanente da execução de cada ação, com a possibilidade de recomendações de ajustes ou mudanças. Isto se chama controle. Tudo isso junto - planejamento, organização, comando e controle - chama-se administração. E nada disso, infelizmente, o PT tem, por isso o partido não funciona e não transforma a quantidade imensa de filiados e simpatizantes que tem numa unidade coletiva ampla e rígida, com força política concentrada e dirigida para a luta por seus objetivos na sociedade.

Ano passado, o jornalista Luís Nassif disse que o petismo é uma militância sem partido e ele está coberto de razão. Porque as únicas coisas que a militância petista realmente tem são a paixão pelo ideal de uma sociedade mais justa e uma legenda eleitoral com sua sigla e bandeira. Mas, partido, a militância petista não tem e por isso permanece atomizada, fragilizada e impotente. O PT corre, assim, o sério risco de morrer por absoluta falta de vontade de viver como organização, com planejamento, organização, comando e controles capazes de garantir o funcionamento pleno e permanente da sua democracia interna e a efetividade do seu poder de ação coletiva no cotidiano das ruas. Uma organização que seja capaz de dar aos milhões de petistas que vivem como átomos soltos na sociedade a possibilidade de se juntarem para formarem um só corpo e somarem forças na luta por seus objetivos comuns. Para conciliar com a burguesia, ninguém precisa de partido organizado e mobilizado. Mas para lutar contra a burguesia, um partido assim é indispensável. Porque, sem partido organizado e mobilizado, nenhuma estratégia de luta coletiva é realizável e todo ideal político acaba fatalmente morrendo no discurso.

Há, hoje, um golpe de Estado em curso e a clara possibilidade deste golpe dar origem a uma ditadura. O que o PT tem pela frente, ao que tudo indica, não serão mais apenas disputas políticas num ambiente relativamente democrático, como o que tivemos até agora, mas batalhas de vida e de morte sob um regime político autoritário que cada vez mais vem se impondo. Os inimigos da classe trabalhadora querem, porque precisam, da morte do Partido dos Trabalhadores. É com a disposição de nos aniquilar que partirão para cima de nós se assumirem a presidência da república. E a sobrevivência do PT a estes ataques, assim como a possibilidade do partido mobilizar uma contraofensiva popular e democrática, dependerão fundamentalmente da capacidade que o partido tenha de mobilizar todo o potencial humano e material da sua base de quase 2 milhões de filiados. O PT precisa, mais do que nunca, organizar e mobilizar esta base para a luta em defesa da democracia e dos direitos que estão sob ameaça. Mas para organizar e mobilizar a base é preciso que a cadeia de comando do partido funcione e que cumpra os deveres que o estatuto do partido lhe atribui.

Por isso é urgente que haja uma radical mudança de atitude da militância petista em relação aos seus diretórios. Os diretórios tem que começar a ser rigidamente cobrados. Porque os diretórios, principalmente zonais e municipais, por serem os últimos elos da cadeia de comando do PT, são os maiores responsáveis pela organização e mobilização das bases de filiados das suas respectivas jurisdições. São tempos de guerra que estamos vivendo e que teremos pela frente, nos quais a negligência quanto ao funcionamento de unidades combatentes, como os diretórios zonais e municipais, constitui atitude, mais que temerária, verdadeiramente suicida. Não se ganha guerra nenhuma sem um exercito adequadamente montado, adestrado e equipado. Não basta que os generais tenham em mente a melhor estratégia e as melhores táticas, é preciso que disponham dos meios necessários para botá-las em prática. E os meios são os recursos humanos e materiais do seu exército. No nosso caso, os recursos do partido.

Por isso, senhoras e senhores membros de diretórios, cobrem-se uns dos outros. Por isso, senhoras e senhores filiados de base, cobrem dos seus diretórios. A vida e força de um partido de esquerda dependem da constância e vigor da atividade dos seus membros e do funcionamento pleno e regular das suas instâncias dirigentes. O PT precisa que nos mantenhamos uns aos outros ativos. O partido apenas vegeta se nos acomodamos e nos permitimos ficar inativos, se negligenciamos o cumprimento dos nossos deveres e se nos omitimos ante as negligências que vemos. A guerra contra a ditadura que temos pela frente só poderá ser vencida se antes declararmos guerra e vencermos a acomodação do petismo quanto à falta de um partido que lhe dê organização, comando e meios para lutar. Dirigente tem que ter disciplina, senão nada no partido funciona. E cobrar dos dirigentes o cumprimento dos seus deveres é um direito político e estatutário inalienável, mas também um dever de todo filiado do PT. Sem o exercício deste dever e direito, não se pode dizer que haja democracia partidária.

É hora de preparar o PT para a guerra, que já começou e na qual já temos sofrido derrotas, porque guerra é luta coletiva e sem partido, nenhuma estratégia de luta coletiva é viável. Sem partido, os ideais do petismo morrerão no discurso.

Silvio Melgarejo

11/08/2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O silêncio das panelas é uma homenagem do egoísmo social à corrupção que lhe presta serviços.

As panelas silenciaram, sumiram desde que Dilma foi afastada e assumiu Michel Temer. Meses atrás, batiam como loucas, de raiva, nas varandinhas dos apartamentos dos ricos ou metidos a ricos, com a justificativa de que não suportavam mais a corrupção no governo. No governo "do PT", diziam, só do PT. Como se o PT governasse sozinho, como se do governo não tomassem parte, ocupando ministérios e outros cargos, vários partidos; como se estes partidos não tivessem o envolvimento que comprovadamente têm com a corrupção; como se só houvesse corrupção na administração federal e como se esta corrupção tivesse começado com a chegada do PT à presidência da república.

Os paneleiros - aqueles que batiam panelas - sempre reconheceram, quando questionados, que o PT não é mesmo o único responsável pela corrupção no país. Mas diziam e dizem, sem nenhum respaldo em fatos, que não é o único, mas é o maior. Só ao PT qualificam como organização criminosa, embora todas as grandes legendas tenham comprovada e maior participação em grandes esquemas ilícitos. Não se chama de quadrilha ao PSDB, ao DEM, ao PMDB, PP, PSB, PSD e PPS, embora se saiba de mensalões, trensalões, petrolões e outras roubalheiras de todos. Os paneleiros não têm por estes partidos ódio, como têm pelo PT, ao contrário, são até seus eleitores. Convencionou-se chamar esta diferença de atitude ante a corrupção, conforme o autor, de "indignação seletiva". Mas a que se deverá, realmente, este ódio ao PT?

Mesmo sendo o mais investigado dos partidos, não se conseguiu, até hoje, nem de longe, comprovar que o PT seja o partido mais corrupto. Porque não é, nunca foi, em realidade. Há quem acredite nesta mentira por falta de informação e senso crítico, mas há também quem a propague conscientemente, movido por interesses pessoais, de classe e por ideologia. São quase sempre pessoas de direita e a característica que melhor define o indivíduo de direita é o egoísmo social. Os paneleiros golpistas são, indiscutivelmente, de direita. A direita abomina a igualdade social defendida pela esquerda, por isso odeia tanto o PT, que foi, na esquerda, o partido que mais avanços fez na realização deste ideal e que mais condições ainda tem, a despeito dos erros cometidos e de todas as agressões sofridas, para continuar avançando, por ter alcançado influência de massas. E esta influência de massas, é preciso que se reconheça, deve-se aos significativos acertos que teve, que resultaram em ações de governo amplamente aprovadas pela classe trabalhadora.

Dois personagens da política hoje se enfrentam na luta pelo poder e seus perfis, absolutamente distintos um do outro, revelam o caráter ideológico e moral dos apoiadores que têm. Michel Temer nada mais é do que um corrupto golpista, parceiro de Eduardo Cunha no crime e pau-mandado de empresários bilionários antipatriotas, corruptores e sonegadores de impostos, que só querem saber de lucrar às custas da hiperexploração do suor do povo e da usurpação das riquezas do Brasil. Dilma Rousseff, ao contrário, é uma mulher honesta, cuja integridade ética nem o mais calhorda dos golpistas teve coragem de questionar e contra quem não pesa uma única suspeita sequer de envolvimento em falcatruas. É uma patriota que defende os interesses do Brasil e da classe trabalhadora e uma democrata que respeita a Constituição.

Quem bateu panela para tirar da presidência esta mulher honrada e apoia a captura do poder por um bandido como Temer, tem que lavar muito a boca antes de ousar falar mal dela e do PT, porque não passa de um hipócrita, cúmplice da roubalheira de todos os partidos movidos a propinas pagas pelo empresariado que não vive sem indevidos favores do Estado. Evidente está que os paneleiros não são, nunca foram contra a corrupção, eles são, na verdade, contra a melhoria de vida do povo mais pobre, conquistada pelos governos petistas. Por isso as panelas silenciaram. Porque agora elas se sentem bem representadas. Estão certas de que, com Temer, os pobres voltarão a ser tratados como nos governos anteriores aos presididos pelo PT, e isso basta para que façam de conta que não sabem do esquema de propinas do Porto de Santos, como de tantos outros esquemas noticiados, envolvendo agentes do golpe.

O silêncio das panelas é uma desavergonhada homenagem do egoísmo social à corrupção que lhe presta serviços, expressão da hipocrisia típica da direita de qualquer lugar do mundo e reprodução do seu padrão de conduta em qualquer época. Porque não haveria processo de impeachment e este processo não teria avançado até onde veio se não fosse a ação inescrupulosa de uma legião de políticos corruptos liderados pelo mais notório de todos os corruptos da atualidade, Eduardo Cunha. O golpe de Estado que está em curso no Brasil hoje é obra de deputados e senadores corruptos, encomendada pela burguesia que é, indiscutivelmente, a maior corruptora do planeta. É um golpe parlamentar movido a propina que leva ao poder mercenários encarregados de realizar o mais prejudicial de todos os programas de governo já implementados no Brasil para os interesses do país e da classe trabalhadora. Este programa nunca seria aprovado numa eleição, precisa, por isso, do golpe para ser imposto. E o golpe precisa da colaboração dos políticos corruptos, que as panelas da direita, muito gratas. homenageiam com seu silêncio cúmplice.

Silvio Melgarejo

28/07/2016

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Oração para Temer ir embora (Oração do Fora Temer).

Contra a CORRUPÇÃO no governo. 

FORA TEMER!

Contra a REDUÇÃO do investimento público em SAÚDE e EDUCAÇÃO. 

FORA TEMER!

Contra o CORTE de DIREITOS sociais e trabalhistas. 

FORA TEMER!

Contra o AUMENTO da IDADE MÍNIMA para APOSENTADORIA.

FORA TEMER!

Contra o ARROCHO SALARIAL.

FORA TEMER!

Contra o FIM dos AUMENTOS REAIS do SALÁRIO MÍNIMO.

FORA TEMER!

Contra a ENTREGA do PRÉ SAL às petroleiras ESTRANGEIRAS. 

FORA TEMER!

Contra os JUROS altos.

FORA TEMER!

Pela AUDITORIA CIDADÃ da DÍVIDA PÚBLICA.

FORA TEMER!

Contra o poder político da GLOBO.

FORA TEMER!

Contra o poder político dos BANQUEIROS, agiotas da nação.

FORA TEMER!

Contra o poder político dos CORRUPTOS, CORRUPTORES e SONEGADORES de IMPOSTOS.

FORA TEMER!

Contra o poder político dos BILIONÁRIOS, parasitas do suor do povo.

FORA TEMER!

Contra o poder político dos RACISTAS, MACHISTAS e HOMOFÓBICOS.

FORA TEMER!

Pela democracia. DITADURA, NUNCA MAIS!

FORA TEMER!

Pelo PLEBISCITO sobre a ANTECIPAÇÃO da ELEIÇÃO PRESIDENCIAL.

FORA TEMER!

O POVO DECIDE QUEM GOVERNA.

Que assim seja.

  Silvio Melgarejo                                   

                                           25/07/2016                             

sábado, 23 de julho de 2016

Do jeito que estamos, só as pesquisas nos salvam.

O clima no campo da esquerda não anda bom. Eu disse no post anterior que a esquerda foi tomada por um ansioso imobilismo, mas o que há mesmo é um imobilismo angustiado. Este imobilismo não resulta de uma decisão, mas da desmotivação gerada pelo fracasso da estratégia adotada pela resistência democrática, que não conseguiu conquistar a adesão da maioria mais pobre da classe da trabalhadora, e da incompreensível insistência da maior parte das direções em continuar com essa mesma estratégia ineficaz, que mantém a esquerda isolada das massas. Já a angústia da esquerda, nasce e se alimenta do pessimismo crescente quanto à possibilidade de vitória no julgamento do impeachment, assim como da crescente consciência quanto ao caráter autoritário do governo Temer e quanto à real perspectiva dele se estabelecer como ditadura.

É sintomático dessa perda de confiança que o "não vai ter golpe" tenha sumido, dando lugar ao "fora Temer". Não discordo que haja razão pro pessimismo. Mas penso que há razão também para otimismo e que ambas precisam ser consideradas para se ter uma visão mais equilibrada da realidade e fazer prognósticos mais precisos. E a maior razão para se ser otimista é que falta um número muito pequeno mesmo de votos para o impeachment ser derrotado no senado. Dilma já conta com 22 certos a seu favor, dos senadores que votaram contra a admissibilidade do processo de impeachment. Como o senado tem 81 membros, ela precisa conquistar o voto de apenas 6 senadores do universo restante, de 59, para atingir os 28 votos necessários. Isso representa 10% dos que votaram a favor da admissibilidade. Não é tanta coisa assim que se possa julgar impossível, ainda mais quando se leva em conta os fatores que podem ser determinantes na decisão final dos senadores, que a meu ver são três:
1 - a convicção da inocência de Dilma quanto às acusações que lhe são imputadas;

2 - a percepção de uma opinião pública muito desfavorável ao governo de Michel Temer; e

3 - a possibilidade de se antecipar a eleição presidencial, correspondendo à vontade da maioria do povo, segundo as pesquisas.
Pois a inocência de Dilma já foi cabalmente comprovada, a rejeição a Temer na sociedade tem se mostrado altíssima e crescente e a presidenta já admitiu antecipar sua sucessão, desde que seja este o desejo do povo, manifestado por meio do voto, num plebiscito, depois que ela for reempossada. E a fraude do Datafolha mostra de maneira inequívoca que, para a direita, a antecipação da eleição é mesmo a maior inimiga do golpe. Tentaram ocultar a preferência do povo exatamente porque sabem que este dado pode influenciar a decisão final dos senadores, favoravelmente a Dilma. Só a esquerda míope não enxerga isso.

As massas gritam "eleição já" através das poucas pesquisas que lhes tem dado voz. E enquanto a direita tenta lhes calar, para que os senadores não ouçam, a esquerda finge que não ouve. Se ao invés disso a esquerda levasse para a rua esse grito que só as pesquisas registram, a resistência democrática se ampliaria, conquistando as mobilizações a adesão dos mais pobres e dando motivos ainda maiores para os senadores votarem contra o impeachment. Porque só a volta de Dilma possibilitaria a abertura de um debate nacional e convocação de um plebiscito sobre a antecipação da eleição presidencial que o povo deseja. Com isso abortaria-se o projeto golpista de implantação no Brasil de uma ditadura neoliberal e daria-se a Dilma tempo e meios para, governando, retomar o diálogo com as massas e recuperar sua confiança e apoio.

Não são esperanças vãs que alimento, são expectativas perfeitamente plausíveis de desenvolvimento do processo político, a partir da escolha de se transferir o julgamento político de Dilma do senado para a sociedade, dando ao povo o poder de decisão sobre a manutenção ou não do seu mandato. Porque o clamor do povo pela antecipação da eleição nas pesquisas expressa, na verdade, um anseio por mudanças, mas mudanças que só um governo de esquerda pode realizar. E é isso exatamente que o debate público sobre programas de governo e sobre as realizações dos mandatos presidenciais petistas demonstraria ao longo da campanha de um eventual plebiscito, como demonstrou nas quatro eleições presidenciais passadas, em que o PT foi vitorioso.

Derrotar o golpe ainda é possível, não há porque perder a esperança, apesar da miopia da esquerda. Seria mais fácil se houvesse na rua manifestações pela antecipação da eleição ou pela realização do plebiscito sobre ela. Mas isso parece que a maior parte das direções da esquerda não quer. Felizmente a opinião pública não se expressa só através de mobilizações, se expressa também através das pesquisas, que muitos políticos tomam como referências para orientar suas atuações. Cada pesquisa que sai dando conta de que o povo quer votar já faz tremer a direita de horror e até cometer desatinos, como este recente da Folha, porque a direita sabe que esta informação pode mudar o voto de 6 senadores, que antes apoiavam o impeachment.

De modo que, com a esquerda completamente parada, em angustiada, por impotente, expectativa, uma só esperança resta de conquistar os votos que faltam para derrotar o impeachment. Que muitas pesquisas haja para que os senadores ouçam o clamor do povo por mudanças, através de uma eleição imediata. Pois que as entidades do movimento democrático e popular encomendem e divulguem estas pequisas. Porque do jeito que está se comportando a esquerda, só as pesquisas podem impedir a consumação do golpe e o estabelecimento no país de uma ditadura.

Silvio Melgarejo

23/07/2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Golpistas são contra eleição e plebiscito. Por que será?

Em meio ao debate estabelecido na esquerda sobre as propostas de antecipação da eleição presidencial e plebiscito, parto, para me posicionar, da constatação um tanto óbvia de que só existem dois caminhos possíveis para se impedir que o impeachment de Dilma seja aprovado em agosto no senado. Ou através da mobilização social ou por meio de um acordo parlamentar. 

A bandeira ou objetivo que tem o maior potencial para mobilizar a classe trabalhadora hoje é, sem dúvida nenhuma, a antecipação da eleição presidencial, porque este é o desejo da maioria dos trabalhadores, segundo as pesquisas de opinião. E o único acordo parlamentar possível, com potencial para garantir os votos necessários para derrotar o impeachment no senado é o acordo que prevê o apoio de Dilma à convocação de um plebiscito sobre a antecipação da eleição presidencial, após o seu retorno a presidência, exatamente porque os senadores sabem que antecipar a eleição é o desejo da maioria do povo.

Defendi a antecipação da eleição presidencial desde a sessão da Câmara que aprovou a admissibilidade do processo de impeachment, em 17 de abril, até o dia em que foi noticiada a existência da articulação do acordo para a derrota do impeachment no senado em troca do apoio de Dilma à realização de um plebiscito sobre a antecipação da eleição. A partir daí passei a defender o acordo do plebiscito e que, havendo plebiscito, se faça a defesa da permanência de Dilma, ou seja, que se chame o voto contra a antecipação da eleição.

As razões pelas quais eu defendia a antecipação da eleição presidencial eram as seguintes:
1 – O impeachment já estava claramente contratado pela burguesia junto ao legislativo e ao judiciário como um processo exclusivamente político, que despreza a exigência legal e constitucional de comprovação do crime de responsabilidade, caracterizando-se, por isso, como um golpe de Estado.

2 – Este golpe tornou-se inevitável porque a resistência democrática parou de crescer sem conseguir a adesão da maioria da classe trabalhadora.

3 – O golpe é um projeto da burguesia e seu objetivo principal não é a redução do mandato da presidenta Dilma e sim a tomada do poder pela direita para a implementação de um programa de governo que direita e burguesia sabem que seria rejeitado pelo povo em qualquer eleição que fosse apresentado. Numa gravação, Romero Jucá diz que conquistou o apoio dos tucanos ao golpe com este argumento.

4 – O programa de governo dos golpistas, apoiado por todas as entidades empresariais, é não só eleitoralmente inviável, como irrealizável num regime democrático, em razão da forte resistência popular que fatalmente provocaria contra a sua implementação. Por isso o governo Temer, caso empossado em definitivo, deverá ser necessariamente um governo autoritário.

5 – Ante esta clara perspectiva de mudança do regime político do país, com o provável estabelecimento de uma ditadura, passei a avaliar que o objetivo principal da esquerda deveria ser impedir a posse de Michel Temer, passando a recuperação do mandato de Dilma Rousseff à condição de objetivo apenas instrumental ou secundário.

6 – Nesta avaliação, considerei o fato de que a maioria da classe trabalhadora, segundo as pesquisas de opinião, mantinha forte rejeição tanto a Dilma, quanto a Temer, ao mesmo tempo que expressava o seu desejo de mudança através da indicação da preferência pela antecipação da eleição presidencial como saída para a crise do país.

7 – Considerei também o fato de que este apoio popular à ideia de antecipar a eleição presidencial deu origem a uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) com este objetivo, que foi assinada por um grupo de 30 senadores.

8 – Com ampla base social e representação no parlamento, a antecipação da eleição presidencial passou a ser a única proposta com potencial real para mobilizar as massas, botando-as em posição antagônica à posição dos golpistas, num momento em que os golpistas ainda não têm garantida a conquista da presidência da república.

9 – Este potencial para mobilizar a classe trabalhadora foi identificado por alguns setores da esquerda, que passaram a defender a antecipação da eleição, mas também pelos próprios agentes do golpe - Globo, Estadão, Temer, Cunha e Jucá -, que passaram a atacar a proposta com declarações e editoriais indignados, em que chegaram a dizer que "antecipar a eleição, sim, é que seria golpe".

10 – Esta forte reação do golpismo, num coro de condenação do qual só a Folha inicialmente esteve fora, vindo logo a aderir, recompondo a unidade com seus pares, reforçou minha convicção de que a antecipação da eleição presidencial seria mesmo o melhor caminho para derrotar o golpe, impedindo que o golpe atinja o seu real objetivo, que é a tomada do poder para a imposição à classe trabalhadora, através do aparato repressivo do Estado, de um programa de governo radicalmente antinacional e antipopular.
Mas aí surgiu a proposta do plebiscito e ela trouxe uma nova e melhor possibilidade de desfecho para esta etapa conturbada do processo político que estamos vivendo. Porque se a defesa da antecipação da eleição impunha o sacrifício do mandato de Dilma para impedir o advento de uma ditadura, o acordo para o apoio de Dilma ao plebiscito não só pode impedir que a ditadura se instale, como daria a Dilma tempo e meios para tentar reconquistar a confiança dos trabalhadores, através do diálogo e ações de governo, e ter referendado o mandato conquistado em 2014, podendo exercê-lo integralmente até 2018, politicamente revigorada por este novo voto popular.

Tenho dito em textos anteriores que para mim o efeito prático do acordo do plebiscito seria a efetiva transferência do julgamento político de Dilma do senado para a sociedade e que há mais condições para Dilma defender-se e ser absolvida sendo julgada pelo povo do que julgada, como tem sido, pela corja corrupta e reacionária do senado. A direita sabe disso e por isso não quer o plebiscito.

E tenho dito também, em textos anteriores, que para mim o efeito prático tanto da antecipação da eleição presidencial, quanto do plebiscito sobre ela, seria levar a disputa política do país para o campo de batalha que mais favorece a uma vitória da esquerda sobre a direita, que é o campo do debate público sobre programas de governo. É para fugir deste debate, do qual não pode escapar nas campanhas eleitorais, que a direita envereda pelo atalho do golpe. E é por temer enfrentar este debate que a direita rejeita tão veementemente a antecipação da eleição presidencial e o plebiscito. É natural que a direita reaja assim. Mas e a esquerda, do que tem medo, quando rejeita, com o mesmo vigor, estas propostas?

Acredito firmemente que o objetivo da esquerda hoje deva ser, antes de tudo, impedir que a direita se arme com os poderes presidenciais para realizar o seu projeto, que seria o maior ataque aos direitos da classe trabalhadora e à soberania do Brasil já registrado na história do país, que provocaria um retrocesso civilizatório de décadas, quase um século, e que arrastaria a nação para um abismo de barbárie e obscurantismo, do qual só depois de prejuízos humanos incalculáveis poderia um dia, quem sabe, se erguer. 

O Brasil tem diante de si um claro projeto de ditadura que precisa ser interrompido antes que se instale e se imponha ao povo com o peso descomunal do aparato repressivo do Estado, que hoje é infinitamente maior do que o da ditadura inaugurada em 64. Mas, se os dois meios possíveis para se abortar essa ditadura são a mobilização social e o acordo parlamentar, é preciso reconhecer que, nas presentes circunstâncias, um e outro sozinho não tem condições de gerar força política suficiente para alcançar seu objetivo, que só combinados eles se potencializarão mutuamente e ganharão eficácia. E a única ação política capaz de favorecer hoje simultaneamente à mobilização social e a um acordo parlamentar no senado é exatamente o apoio de Dilma e da esquerda à consulta popular sobre a antecipação da eleição presidencial

O povo quer mudanças, por isso apoia a antecipação da eleição. O plebiscito daria a este anseio popular um meio de afirmação. Mas também daria a Dilma e à esquerda tempo e meios para demonstrar que a permanência da presidenta é o caminho mais seguro para as mudanças desejadas. Não é solução mágica, como se vê, já que o poder continuará em disputa. Mas as chances de vitória em qualquer disputa serão sempre tanto maiores, quanto mais favoráveis nos forem as condições do campo de batalha e desfavoráveis ao desempenho do inimigo. O campo de batalha que mais favorece à esquerda, como tenho dito, é o campo do debate público programático imposto pelas campanhas eleitorais. E este plebiscito que tem sido proposto nada mais é do que uma eleição, onde não serão julgados os crimes de responsabilidade atribuídos a Dilma, mas o conjunto da obra dos mandatos presidenciais petistas, desde Lula, e os programas de governo oferecidos pela esquerda e pela direita para o próximo período.

Digo tudo isso para demonstrar que a esquerda tem muito menos razões para temer um processo eleitoral ou plebiscitário do que a direita, o que torna absolutamente sem sentido a unidade de alguns setores com os principais agentes do golpe contra a eleição presidencial e o plebiscito. Como eu já disse, também, num outro texto, não é possível que estas duas propostas favoreçam e desfavoreçam ao mesmo tempo ao golpe de Estado, o que significa que alguém está errado, dando, como se diz, "tiro no pé". E quem estará "dando tiro no pé" quando se opõe ao plebiscito e à antecipação da eleição? Globo, Estadão, Folha, Temer, Cunha, Jucá e Alckmin? Ou CUT, MST, CMP, PT e PCO? Eu não tenho dúvida nenhuma de que errados estão os companheiros da esquerda e que absolutamente corretos estão os estrategistas do golpe.

A direita se opõe à antecipação da eleição e ao plebiscito porque vê nestas propostas uma séria ameaça ao seu projeto de golpe e ditadura neoliberal, na medida em que estas propostas se apresentam como saídas alternativas viáveis ao estabelecimento de um governo cada vez mais reconhecido na sociedade como corrupto, autoritário, antipopular e entreguista, por corresponderem ambas as propostas ao anseio da maioria do povo por mudanças. E sabe a direita que as mudanças que o povo deseja não são as mudanças que ela pretende para o país, porque o povo rejeitou o seu programa de governo em quatro eleições presidenciais consecutivas e reiteradamente o tem rejeitado toda vez que nas pesquisas de opinião exige do Estado saúde, educação, segurança, previdência social e uma política econômica que garanta emprego e renda digna para todos.

O tempo passa e a data do julgamento do processo de impeachment no senado cada vez mais se aproxima, sem que a esquerda defina claramente uma estratégia realmente capaz de influir no seu resultado. Depois da onda de belas, mas insuficientes mobilizações contra o golpe, a esquerda quase toda caiu num ansioso imobilismo, desmotivada pela total indiferença do povo aos reiterados chamados para a luta em defesa da democracia. A resistência democrática parou de crescer, porque não conseguiu com seu discurso a adesão da maioria mais pobre da classe trabalhadora, e com isso o golpe avançou e continua avançando. 

Ante a evidente ineficácia da estratégia que mantém, alguns setores da esquerda, dentre os mais aguerridos opositores do plebiscito e da antecipação da eleição presidencial, já flexibilizam esta posição radical, admitindo que o acordo entre Dilma e os senadores possa contribuir para a derrota do impeachment e até consentindo que este acordo seja estabelecido, mesmo apontando uma série de inconvenientes e limitações e recusando-se a investir na mobilização social em favor da consulta popular. 

Temer vai se equilibrando, com a ajuda da mídia, entre as exigências da burguesia, as cobranças dos sócios de empreitada golpista e as desconfianças do povo. Tentará agradar a todos, não ferindo interesses de quem possa influir no resultado do julgamento de Dilma, até que finalmente tenha alcançado a posição de presidente, pela qual tem lutado. E aí a conversa certamente mudará de tom. Ele mesmo já disse, com todas as letras, num evento com empresários do setor ruralista, que as medidas mais impopulares, só tomará quando assumir a presidência em definitivo. De modo que, quando o povo, hoje apenas desconfiado, sentir na pele os efeitos dessas medidas e tentar expressar nas ruas sua desaprovação, vai descobrir que perdeu também este direito, entre outros tantos, porque o governo Temer será, não tenho dúvida, uma autêntica ditadura.

A esquerda não pode cometer o grave erro de permitir que isto aconteça, abraçada, como está, a uma estratégia falida, baseada num principismo que desconsidera as circunstâncias reais da guerra em que atua. Se houvesse alguma perspectiva de o governo Temer vir a ser democrático, poderia-se contar com alguma condição para derrotá-lo e ao seu programa em breve tempo através da disputa política na sociedade. Mas não há esta perspectiva. E o que se terá, se ele se estabelecer como presidente, será o confronto entre uma classe trabalhadora desorganizada, sem mídia e sem partidos estruturados, contra uma ditadura apoiada pela burguesia unida, dispondo dos mais poderosos e sofisticados meios de repressão política e desmobilização social. Na verdade, não seria confronto, seria um massacre. E não é possível, francamente, que se considere um cenário destes mais favorável à esquerda do que a disputa de um plebiscito ou eleição, com Dilma ocupando a presidência.

Em tempo, vale registrar a escandalosa fraude estatística e jornalística de Datafolha e Folha, denunciada esta semana por vários órgãos da imprensa independente, como o site The Intercept, do consagrado jornalista Gleen Greenwald. Comprovado está que instituto e jornal simplesmente falsificaram os dados de sua pesquisa de opinião mais recente para esconder que mais de 60% dos entrevistados querem a antecipação da eleição presidencial. E o fizeram, claramente, para evitar que este número influenciasse a decisão dos senadores de aderirem ou não ao acordo do plebiscito que pode sepultar o impeachment. 

Só o desespero da direita, ante à real perspectiva de derrota que este acordo lhe cria, pode explicar um movimento de tamanho risco para a credibilidade de um de seus jornais e de um dos seus institutos de pesquisa mais prestigiados. A farsa foi desmascarada e, ao se-lo, mostra que, enquanto a esquerda hesita em apoiar o plebiscito, cega às virtudes e ao potencial desta estratégia, a direita já combate o plebiscito como quem luta pela própria vida, valendo-se até dos meios mais temerários para ela própria, como esta adulteração de dados da pesquisa Datafolha, exatamente porque vê na proposta do plebiscito o que a esquerda míope não tem conseguido enxergar.

Esta fraude do Datafolha constitui, portanto, mais um dado relevante da realidade a corroborar a tese de que a defesa do plebiscito hoje não seria um tiro da esquerda no próprio pé, como muitos dizem, mas um tiro da esquerda no coração do golpe. Por isso sigo apoiando esta proposta, absolutamente convicto de que este é o melhor caminho para a defesa da democracia e dos direitos da classe trabalhadora que permanecem ameaçados.

Não ao golpe!

Ditadura nunca mais!

Fora Temer!

Depois, plebiscito.

O povo decide quem governa.

Saudações petistas,

Silvio Melgarejo

21/07/2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Plebiscito contribui para a derrota do golpe, não o legitima e pode ser vencido pela esquerda.

Crítica dos dois argumentos mais frequentemente usados contra o plebiscito e à antecipação da eleição presidencial.

Os dois principais argumentos apresentados pelos opositores do plebiscito e da antecipação da eleição presidencial são os seguintes.


Que a antecipação da eleição legitimaria o golpe


O primeiro é que o plebiscito e a antecipação da eleição legitimariam o golpe, ou seja, que seriam um reconhecimento da justiça e legalidade do processo de impeachment.

Considero este argumento inválido por entender que é a narrativa que se faz do golpe que pode ou não legitimá-lo e não a atitude, muitas vezes imposta pelas circunstâncias, que se tem diante dele.

Cito, para ilustrar, o caso da pessoa que, assaltada, entrega a carteira e depois vai à policia denunciar o crime.

O fato dela ter entregado a carteira não poderá jamais ser interpretado como um reconhecimento de justiça e legalidade à apropriação que se fez, se ela relata que foi coagida a isso por alguém de arma em punho, ameaçando a sua vida.

Quem age sob coação reconhece a própria impotência ante a ameaça que sofre e não a legitimidade desta ameaça.

Só há reconhecimento da legitimidade da apropriação de um bem ou cargo quando a narrativa de quem transfere a posse destes objetos indica que ele o fez de forma voluntária, sem sofrer qualquer constrangimento de natureza ilegal ou injusta.

Se Dilma defende um plebiscito, denunciando a fraude do seu processo de impeachment e dizendo que admite a redução do seu mandato apenas para evitar um mal muito maior que é a tomada do poder por um agrupamento político corrupto, comprometido com a realização de um programa de governo radicalmente antinacional e antipopular, não há como se atribuir ao seu gesto qualquer significado que não seja o do desprendimento pessoal e de zelo absoluto com a democracia e com os interesses da classe trabalhadora. É impossível encontrar neste discurso uma ponta sequer de reconhecimento de legitimidade, ou seja, de justiça e legalidade, ao processo de impeachment que a obriga a chegar a essa atitude extrema.

Que a esquerda não tem chance de vencer


O segundo argumento que mais ouço contrário ao plebiscito e à antecipação da eleição presidencial é de que a esquerda não teria condições de ganhar nenhuma disputa com a direita hoje por causa da onda conservadora ou direitista que se verifica na sociedade e por causa do desgaste da imagem do PT, resultante da intensa campanha de criminalização da sigla, mantida durante anos pelos meios de comunicação.

Também considero inválido este argumento, em primeiro lugar, pela evidência incontestável de que a onda conservadora ou direitista que existe está relacionada à moral e à pauta dos direitos humanos e não à pauta dos direitos sociais e trabalhistas. A maioria da classe trabalhadora pode ser a favor da pena de morte e contra a legalização da maconha, da prostituição, do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e nisso, de fato, identifica-se com a direita. Mas, por outro lado, continua identificando-se fortemente com a esquerda quando exige do Estado saúde, educação, segurança, previdência e uma gestão da economia que garanta emprego e renda digna para todos. E é esta última pauta que, indiscutivelmente, tem determinado o resultado das eleições presidenciais das últimas décadas.

Não é, portanto, sem razão que a direita foge o quanto pode do debate sobre a relação entre política econômica e direitos sociais e trabalhistas, que as campanhas eleitorais nacionais acabam sempre impondo, indo refugiar-se na pauta moralista dos costumes individuais e do combate à corrupção política. Porque este é o único discurso que ela pode fazer tendo boa aceitação entre os trabalhadores, desde, é claro, que os trabalhadores não saibam ou pelo menos desconfiem dos seus atos criminosos, o que tem se mostrado cada vez mais raro.

Um dia depois de uma grande manifestação a favor do golpe, na avenida Paulista, o instituto Paraná Pesquisas divulgou um levantamento indicando que mais de 60% dos presentes àquele evento concordavam com a afirmação de que "o PT não é o único partido culpado pelos escândalos envolvendo a Lava Jato e a Petrobras". Aécio e Alckmin, do PSDB, foram hostilizados e expulsos dessa manifestação. Na mesma data, outro instituto, o DataPopular, divulgou pesquisa  indicando que 92% dos brasileiros concordavam com a afirmação de que "todo político é ladrão". Isso mostra claramente que o que predomina na sociedade não é o antipetismo, tampouco o anti-esquerdismo, o que predomina na sociedade é a antipolítica e o anti-partidos políticos.

Penso, portanto, que numa próxima eleição, como em todas as anteriores, a questão da corrupção poderá ser importante, mas não determinante do resultado do pleito. Determinantes serão sempre as respostas dos candidatos às demandas sociais por mais direitos. E nesse debate a esquerda sempre levará vantagem sobre a direita. Porque os programas de governo da esquerda se caracterizam exatamente pela afirmação e ampliação de direitos, enquanto os programas de governo da direita se caracterizam pela restrição e negação de direitos.

Por isso entendo, como venho dizendo, que o melhor campo de disputa política para a esquerda hoje não é o do parlamento, do judiciário ou das ruas, e sim o campo do debate público programático, que, em razão do controle absoluto da mídia pela direita, só tem sido possível exatamente nos processos eleitorais, por imposição legal. A inexistência de uma mídia democrática anula, nos períodos não eleitorais, quase que completamente a vantagem natural que a esquerda tem sobre a direita no debate programático, porque impede que as diferenças programáticas se expressem e sejam vistas pelo povo.

Nas eleições, sobretudo presidenciais, é que esta vantagem tem tido maior possibilidade de se impor porque nelas abre-se uma janela na mídia através da qual a esquerda pode confrontar o seu programa de governo com o programa de governo da direita e estabelecer diálogo direto com a classe trabalhadora.

Eleição para a esquerda hoje não é, portanto, problema, é oportunidade que a esquerda precisa ser capaz de enxergar e aproveitar. É possível vencer uma eleição hoje, como vencemos as quatro eleições presidenciais anteriores. Porque apesar de ter o controle da mídia e de grandes máquinas partidárias, a direita terá que enfrentar a sua primeira campanha sem o financiamento de empresas, tem um programa de governo que precisa esconder a todo custo do eleitor, só tem pré-candidaturas fracas ou inconsistentes e tem sido atingida pela operação Lava Jato tanto quanto a esquerda.

A esquerda, portanto, não tem porque temer o confronto com a direita num plebiscito ou numa possível eleição presidencial antecipada, deve, ao contrário, preparar-se para tirar o melhor proveito possível destas disputas como meios para fazer avançar a consciência política da classe trabalhadora. Este avanço de consciência pode nos proporcionar uma vitória imediata ou servir para acumular força a ser empregada nas disputas futuras.

Nós podemos ganhar – e há, como creio já ter demonstrado, razões para confiar nisso –  ou podemos perder. Mas se perdermos será lutando no campo de batalha que hoje mais nos favorece e não num terreno em que o inimigo tem superioridade, como o parlamento, o judiciário e as ruas, onde, aí sim, a derrota seria certa.

Silvio Melgarejo

29/06/2016

terça-feira, 28 de junho de 2016

Plebiscito é radicalização da democracia contra a escalada autoritária do neoliberalismo.

Defendo o plebiscito porque ele cria condições para a derrota do impeachment que eram inexistentes até o recente acordo firmado entre Dilma e os 30 senadores liderados por Roberto Requião, e porque o plebiscito criará condições, que hoje praticamente inexistem – e por isso a resistência ao golpe tem sido claramente insuficiente -, para a retomada do diálogo da esquerda com a classe trabalhadora, levando a disputa política para o campo de batalha que mais favorece à esquerda, que é o campo do debate público sobre programas de governo.

Por estas mesmas razões admito, sem receio, a antecipação da eleição presidencial, se este for o desejo do povo, manifestado através do plebiscito. A esquerda não tem razão nenhuma para temer o debate programático que as eleições impõem. A direita, sim. Por isso considero natural que Globo, Estadão e Folha, além de Temer, Cunha, Jucá e Alckmin, oponham-se tão ferrenhamente à antecipação da eleição e até à consulta popular sobre ela. Mas acho incompreensível que ao lado deles, mesmo que por razões diversas, estejam CUT, MST, Articulação de Esquerda/PT e PCO.

Esta inusitada coincidência de posicionamentos deveria, no mínimo, intrigar os companheiros destas organizações e aos militantes de esquerda que pensam como eles. É evidente que a direita não diz e não dirá as reais razões da sua oposição ao plebiscito e à antecipação da eleição presidencial. Mas também é claro, por lógico, que estas razões dizem respeito à avaliação que a direita faz da conveniência destes eventos para a realização da sua estratégia e para a conquista dos seus objetivos.

Ora, se o plebiscito e a antecipação da eleição presidencial são propostas negativas, do ponto de vista dos agentes do golpe, não é possível que sejam vistas também como negativas por quem luta contra o golpe, pela razão muito simples de que não podem favorecer o golpe e desfavorecê-lo ao mesmo tempo. Quando os dois lados – quem quer o golpe e quem não quer – têm a respeito do plebiscito e da antecipação da eleição o mesmo juízo negativo e a mesma rejeição, é forçoso reconhecer que um dos dois está errado. Alguém, como se diz, está “dando tiro no pé”. E quem será esse alguém? Globo, Estadão, Folha, Temer, Cunha, Jucá e Alckmin? Ou CUT, MST, Articulação de Esquerda/PT e PCO? Tenho convicção de que errados estão os companheiros e faço votos que se deem conta disso antes que seja tarde.

Tenho dito que o objetivo da direita quando investe no golpe de Estado não é reduzir o mandato de Dilma, mas tomar o poder de assalto, à revelia do povo, para impor ao povo, à força, mediante o uso intensivo do aparato repressivo do Estado, com total respaldo do oligopólio da mídia e dos poderes legislativo e judiciário, um programa de governo neoliberal, radicalmente antinacional e antipopular. E de fato já é possível constatar que está em curso no país uma verdadeira escalada do autoritarismo e que há um claro projeto de ditadura no governo provisório de Michel Temer. É esta escalada que precisa ser contida e é este projeto que precisa ser abortado, porque quando se instalar será difícil demovê-lo. E os editoriais da mídia golpista, cuja preocupação grita nas entrelinhas do protesto, da condenação e do desdém, mostram, sem querer, que Dilma está no caminho certo.

Quando digo que o plebiscito cria condições para a derrota do impeachment baseio-me na avaliação do grupo de senadores que está articulando o acordo com Dilma e na constatação de que é realmente muito pequeno o número de votos que faltam para a absolvição da presidenta. Para ser aprovado, o impeachment precisa ter os votos de 2/3 dos senadores. Como o senado tem 81 membros, são necessários pelo menos 54 votos favoráveis para aprovar o impeachment. Isto significa que para derrotá-lo são necessários pelo menos 28 votos não favoráveis, que podem ser tanto votos contrários ao impeachment, quanto abstenções e ausências. Com 28 votos não favoráveis, os favoráveis ficam em 53, um a menos do que o exigido pela lei, e o impeachment é reprovado. Na votação do dia 11 de maio, que aprovou a admissibilidade do processo contra Dilma, 22 senadores votaram contra, dois se ausentaram e 55 votaram a favor. Para absolver a presidenta no final do julgamento é preciso, portanto, manter os 24 votos não favoráveis à abertura do processo (22 contra e 2 ausentes) e conquistar só mais 4 dos que naquela ocasião foram favoráveis.

Considero que três fatores podem ser determinantes para a decisão de um senador votar contra o impeachment. A convicção da inocência de Dilma quanto às acusações que lhe são imputadas, a percepção de uma opinião pública muito desfavorável sobre o governo provisório de Michel Temer e a possibilidade de se antecipar a eleição presidencial, abreviando o mandato de Dilma. Pois estas três condições já estão sendo inteiramente atendidas. Porque a inocência de Dilma já foi cabalmente comprovada, a rejeição a Temer na sociedade tem se mostrado altíssima e crescente e a presidenta já concordou em antecipar sua sucessão, desde que seja este o desejo do povo, manifestado por meio do voto, num plebiscito. Esta é a condição que ela impõe, criando uma perspectiva nova para o desfecho do processo.

Desde o início do processo de impeachment, a justificativa jurídica para a cassação do mandato da presidenta tem sido de que ela teria cometido crime de responsabilidade, passível desta pena, de acordo com a Constituição. Ocorre que este crime de responsabilidade nunca foi comprovado. Mas o processo avançou, a despeito disso, afrontando a Carta Magna, apoiado numa justificativa política de que a presidenta deveria ser deposta “pelo conjunto da obra”, que seriam os desacertos – reais ou inventados – do seu governo, supostamente responsáveis pela crise econômica do país.

Os agentes do direito comprometidos com o golpe ou apenas omissos, por covardia, diante dele fazem vista grossa para a inépcia da acusação formal, enquanto a expressão “conjunto da obra”, que, não definindo nada, serve para abarcar todas as insatisfações da sociedade, vai atendendo com eficácia ao propósito de sustentar politicamente o que juridicamente não para em pé.

O processo de impeachment da presidenta Dilma tem sido, portanto, na verdade, um julgamento exclusivamente político, que despreza inteiramente a principal exigência para condenação prevista na Constituição, que é a comprovação do crime de responsabilidade. E penso que se é para sofrer julgamento exclusivamente político, melhor será para Dilma, sem dúvida nenhuma, que este julgamento seja feito pelo povo do que por um bando de corruptos e inimigos da esquerda e da classe trabalhadora. O acordo para a realização do plebiscito teria como efeito prático exatamente a transferência da responsabilidade por este julgamento político das mãos dos senadores para as mãos do povo, o que criaria a possibilidade de um desfecho bastante diferente do que até hoje tem parecido mais provável.

A inocência comprovada de Dilma e a desaprovação ao governo Temer por si sós talvez não bastem para determinar o voto contrário ao impeachment de muitos senadores. Mas a possibilidade de livrarem-se da responsabilidade por um ato de tamanha gravidade, como é a cassação de uma presidenta da república, ainda mais da forma e no contexto em que se pretende fazê-lo, tem tudo para influenciar muitos deles a votarem nesse sentido.

Transferindo de fato o julgamento político de Dilma do senado para a sociedade, estes senadores livram-se da pecha de golpistas, sem afrontar os eleitores que querem abreviar o mandato da presidenta, por desaprovarem o seu governo, já que dão a eles a prerrogativa de atuarem, eles próprios, como juízes. Solução perfeita que atende à conveniência e, ao mesmo tempo, à consciência dos que tem consciência.

Quando digo que o acordo do plebiscito cria as condições para a retomada do diálogo da esquerda com a classe trabalhadora, refiro-me à recuperação do poder presidencial, que permite a concepção e execução de ações de governo, mas também ao acesso às mídias eletrônicas de massas – rádios e TVs –, proporcionado pela condição de presidente da república e pela legislação eleitoral no período das campanhas tanto do plebiscito, quanto de uma possível eleição presidencial antecipada.

O acesso à mídia é tão importante para a definição dos rumos do processo político que a primeira coisa que direita fez, logo que Dilma foi afastada, com a abertura do processo de impeachment, foi desaparecer com a voz e imagem dela dos noticiários, tornando-a simplesmente inaudível e invisível para o povo. Tratam-na como se não existisse, como se já tivesse morrido para a política, ficando apenas o seu substituto provisório, este sim apresentado como última esperança do país.

Voltando à presidência, Dilma terá que ter uma política de comunicação agressiva, para ocupar espaço nas rádios e TVs da direita, mas já terá garantida a TV Brasil e a tribuna eletrônica proporcionada pela campanha do plebiscito, no horário da propaganda eleitoral obrigatória. Para vencer os desafios desta nova etapa do seu mandato a presidenta terá que exercitar permanentemente o debate público com a direita e o diálogo com a classe trabalhadora através da mídia, combinando audição atenta e discursos claros com ações de governo que confirmem as suas palavras e contribuam para uma crescente e rápida recuperação da sua credibilidade.

O acordo do plebiscito abre horizontes novos para a esquerda, que até agora só tinha como perspectiva mais realista a derrota, já que as massas trabalhadoras tem se mantido indiferentes ao discurso democrático e refratárias a todo chamado que se fez para a mobilização, desde o início da resistência ao golpe.

Com o acordo do plebiscito a derrota deixa de ser uma certeza para ser apenas possibilidade, porque passou a ser também possível derrotar o impeachment no senado e com isso iniciar uma forte reação à escalada autoritária do neoliberalismo.

Não se trata de fórmula mágica que solucione todos os problemas da esquerda, mas da solução possível para um problema específico que, não sendo resolvido, criará problemas maiores, de solução muito mais difícil. Trata-se de evitar que, se consumando, o golpe dê origem a uma ditadura.

E a esquerda pode, realmente, vencer. Se não for no plebiscito, garantindo a continuidade do mandato de Dilma, pode ser na eleição presidencial que vier em seguida. Porque, como tenho dito, o campo de disputa política que mais favorece hoje à esquerda não é o do parlamento, do judiciário ou das ruas, é o campo do debate público sobre programas de governo, possibilitado pelas campanhas eleitorais.

E aí há uma questão que precisa ser considerada porque diz respeito aos nossos desafios futuros. Enquanto a esquerda não superar a sua falta de meios de comunicação com as massas e os problemas crônicos de administração partidária, que inviabilizam quase inteiramente o aproveitamento do potencial militante das bases de filiados dos seus partidos, as campanhas eleitorais vão continuar tendo um papel fundamental para a conscientização e mobilização dos trabalhadores.

É preciso reconhecer que fora dos períodos eleitorais a esquerda não tem canal nenhum de comunicação com a imensa maioria da classe trabalhadora, razão pela qual a democratização da mídia, com a regulação dos meios de comunicação e com a construção de uma rede pública democrática de rádio e TV, deve ser elevada à condição de prioridade máxima no próximo período.

O desastre da primeira metade do segundo mandato de Dilma e o consenso nacional sobre a falência do presidencialismo de coalizão praticamente impõem ao PT o abandono definitivo da estratégia de conciliação de classes e isto, certamente, terá como efeito uma aproximação e até unidade de ação com alguns setores da esquerda que hoje lhe fazem oposição.

Mas desta unidade entre as superestruturas dos partidos não resultará um fortalecimento real do campo da esquerda se as cadeias de comando destes partidos continuarem negligenciando o cumprimento das funções administrativas necessárias para a organização e mobilização das suas respectivas bases de filiados.

Um partido de massas como o PT, que tem mais 1,7 milhão de filiados, tem potencial para intervir com muito mais força e frequência na sociedade do que tem feito. O problema é que a cadeia de comando do partido não funciona e por isso a base de filiados permanece dispersa e incomunicável.

Não existe democracia e poder de ação coletiva partidárias sem funcionamento do partido como organização, com comando, organização e disciplina dos dirigentes. E a estratégia mais correta terá sempre a sua correta execução inviabilizada se os dirigentes não forem capazes de tomar decisões que conduzam ao melhor trato possível dos recursos humanos e materiais do partido em cada ação planejada.

Revolucionar administrativamente o partido e lutar pela democratização da mídia controlada pela iniciativa privada e pela construção de uma mídia pública forte e democrática são os mais importantes desafios que o PT precisa enfrentar e vencer no próximo período para ter condições de enfrentar e vencer todos os demais desafios da luta de classes.

Ter um partido cuja democracia interna funcione intensa e permanentemente e que tenha um poder de ação coletiva que permita uma intensa e permanente intervenção política na sociedade; e ter acesso a mídias eletrônicas que permitam uma intensa e permanente comunicação com o conjunto da classe trabalhadora, são condições inescapáveis para o fortalecimento da esquerda na sociedade e para o avanço do seu projeto no país.

Mas, neste momento, a prioridade é derrotar o golpe e impedir o advento de uma ditadura. É hora de apoiar a inteligente e corajosa decisão da presidenta Dilma de construir no senado um acordo para a transferência do seu julgamento político do parlamento, onde o jogo já estaria decidido, para a sociedade, onde ainda temos chance de vitória. O modo como reagem os agentes do golpe, revela preocupação quanto aos possíveis resultados deste audacioso movimento. A direita treme porque sente o seu projeto ameaçado.

Crítico que fui de Dilma, desde o início do seu segundo mandato, é com enorme satisfação e com esperança renovada que digo agora:

Companheiros do PT, da CUT, do MST e do PCO.

Desta vez, a presidenta está certa. Vamos apoiá-la.

Fora Temer!

Depois, plebiscito.

O povo decide quem governa.

E o meu voto será pela permanência de Dilma.

Saudações petistas,

Silvio Melgarejo

28/06/2016