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sábado, 26 de julho de 2014

Os drinks de Sininho e seus amigos.

Em 24/7/2014, minha irmã, Glória Melgarejo, compartilhou o link de um artigo do jornalista Paulo Nogueira, do blog Diário do Centro do Mundo, e perguntou minha opinião sobre ele. Reproduzo o texto a seguir:

"Quem tem medo de Sininho?


Quem tem medo de Sininho?

Alguns meses atrás escrevi um artigo com o título acima.

Bem, parece que muita gente, como sugere a prisão de Sininho sábado em Porto Alegre.

Não sei o que foi mais vexatório ontem, o desempenho da seleção ou a ordem da polícia do Rio de prender Sininho e outros ativistas supostamente vinculados ao grupo Black Bloc.

A polícia deu uma inflada assombrosa nas armas, aspas, que teriam sido encontradas entre os detidos.

Para isso contou com a contribuição milionária da imprensa, especialmente o Globo.

O revólver do pai de um ativista virou 'armas de fogo'. O plano era usar 'artefatos explosivos' num protesto hoje no Rio, na final da Copa.

Tanto quanto se sabe, os 'artefatos explosivos' eram fogos de artifício, daqueles que você compra para festas juninas.

Protestar é proibido? Por antecipação, a polícia sabia que haveria vandalismo?

Há, aí, uma brutal inversão. As regras das manifestações foram tornadas claras. Vandalismo, não. Mas você prende as pessoas antes que elas cometam qualquer infração?

Já que estamos no futebol, é como aplicar cartão vermelho antes que o jogador faça falta.

Não é um problema de Dilma. Ela não responde pela polícia do Rio. Mas é claro que sua imagem fica, de alguma forma, ainda que injustamente, associada às prisões, já que ela preside o país.

Isso ajuda também a afastar jovens idealistas do PT. Não estou falando especificamente dos black blocs, mas de todos os garotos e garotas que anseiam por mais justiça social, e mais rapidamente – e identificam nas parcerias políticas em nome da governabilidade um empecilho a avanços.

Trinta anos atrás, jovens com tal perfil se inclinavam naturalmente pelo PT.

E hoje?

O PT tem um desafio: voltar a se tornar atraente para a juventude de esquerda. Casórios com Sarney, Maluf e tantos outros afastaram o partido deste público.

As prisões desta final de semana provocam um afastamento ainda maior.

Ah, mas a realidade política obriga a alianças que fazem você tapar o nariz: é este, sempre, o argumento para justificá-las.

O que foi feito, nestes anos todos, então, para ao menos tentar modificar essa realidade?

Nada, esta é a resposta.

Foi preciso que os jovens fossem às ruas nas chamadas Jornadas de Junho para que o PT acordasse para o distanciamento que se estabelecera entre o partido e a garotada idealista.

A partir de então, você viu duas coisas. A primeira foi o reconhecimento, ainda que discretamente, do problema.

Isso se deu em quase silêncio, e mais na cúpula do partido.

A segunda reação, alastrada entre a militância, se caracterizou pela agressividade extrema contra os jovens manifestantes.

Nisso, curiosamente, a militância petista acabou como que se igualando à direita.  Os adjetivos usados por gente como Reinaldo Azevedo para designar os black blocs são singularmente parecidos com os utilizados pela militância petista.

A verdade é que o PT deveria ser grato aos jovens dos protestos. Me refiro aos genuínos, aqueles que se motivaram por uma pauta de esquerda, os que se indignaram com coisas como a remoção de desvalidos para a Copa.

Foram essas pessoas que acordaram o PT para a realidade como ela é, e não como a liderança petista achava que fosse.

O PT gastou um bom tempo numa autocongratulação promocional em torno dos ganhos sociais de suas administração.

São ganhos reais, e merecem aplausos.

Mas a desigualdade, a despeito disso, é ainda acachapante. E a sociedade não parece disposta a esperar uma eternidade para que o Brasil ultrapasse os extremos de opulência e miséria que ainda hoje nos embaraçam.

O sistema político retarda o avanço? Que se mude.

Prender Sininho e companheiros não resolve nada. Antes, mostra a velha vontade de arrastar os problemas para debaixo do tapete."
Respondi-lhe no mesmo dia:
"Discordo de quase tudo. 

Mas, antes de comentar, peço a você que ouça a gravação abaixo:

'Karlayne pede a uma jovem material para, segundo a polícia, usar em coquetéis molotov.'

Uma das 'ativistas' pede 5 litros de "líquido" para fazer uma 'oficina de drinks'. 

Que líquido era esse? 

Por que a omissão do nome da 'bebida'? 

Não seria porque o tal líquido não era de beber? 

Gasolina, por exemplo, como a que foi apreendida pela polícia? 

Você pode dizer que tudo foi plantado, e isso não seria novidade no histórico da nossa polícia. 

Mas se a polícia diz que apreendeu litros de gasolina na casa dessas pessoas, e grava uma conversa delas, em que elas dizem, em tom enigmático, como quem faz algo proibido, que precisam de 5 litros, não de bebidas determinadas, mas de um 'líquido', cujo nome ocultam, para fazer uma 'oficina de drinks'; aí a informação da apreensão de gasolina, passa a ser verossímil. 

Oficinas de drinks costumam preparar também coquetéis. E que coquetel, afinal, se pode fazer com gasolina? Coquetel Molotov, uma bomba incendiária. 

E prá que serve uma bomba incendiária?

Para matar ou ferir gravemente.

Quem se prepara alegremente para matar ou ferir gravemente um outro ser humano, não é uma pessoa perigosa?

Não foi gente assim, com esse espírito, que tirou a vida do cinegrafista Santiago Andrade?

Cometer ou admitir que se cometa esse tipo de ato criminoso nas manifestações populares, não é criminalizar de fato essas manifestações? 

Por que você acha que a maioria das pessoas se afastou das passeatas? 

Não foi por que essas pessoas viram que o crime passou a fazer parte do roteiro fixo destes movimentos, a princípio pacíficos?

Não vou tratar de aspectos jurídicos, porque não tenho conhecimento para isso. Mais tarde falo do lado político do episódio."
Glória disse, então:
"Silvio, concordo absolutamente com tudo o que vc escreveu. Não é disso que estou falando. Estas pessoas podem sim ser culpadas e se forem devem sim ser punidas. Não as conheço e não tenho nenhum motivo pessoal para defendê-las. Ocorre que não posso concordar com a forma como a coisa está sendo feita. Estou acompanhando bem de perto porque, por acaso, trabalho numa instituição jurídica. Tenho, inclusive, como esclarecer minhas dúvidas no campo jurídico. 

Anteontem, a OAB realizou um ato, que reuniu várias instituições e organizações que lidam com Direitos Humanos, além de partidos políticos, incluindo o PT, contra as ilegalidades que vêm sendo cometidas. Pra começar, ninguém pode ser preso antes de cometer um crime porque supõe-se que irá cometer este crime. Prisão para averiguação é comum em ditaduras, mas é inadmissível numa Democracia. Depois, uma vez presos, a polícia impediu que os advogados de defesa tivessem acesso às denúncias. Isso é ilegal. Nem o desembargador a quem cabia avaliar tais denúncias teve acesso. Somente a Globo teve acesso ao tal relatório do MP. Isso mesmo. Somente a Globo, porque meus colegas de outros veículos tb não conseguiram obter as informações. 

Ai eu te pergunto: como é que a gente, conhecendo a forma como a Globo trabalha quando tem algum interesse no assunto, pode comprar como verdade algo a que só a Globo teve acesso? Tenho certeza de que existem sim pessoas que praticaram atos criminosos e que devem ser investigadas e punidas, mas quem nos garante que são estas pessoas que a Globo já julgou e condenou? Não estou afirmando que nenhum deles é inocente. Podem ser culpados. Ou não. O fato é que têm direito à ampla defesa e ao contraditório e isso não está acontecendo. Às tais 'provas', só a Globo teve acesso. Como confiar? 

O que vejo é que estão fazendo o mesmo 'trabalho' sujo que fizeram com o pessoal do mensalão. Não. Não estou comparando Genoíno e José Dirceu a vândalos. Estou somente querendo que todos, independente do crime a que são acusados, tenham um julgamento justo e feito pela Justiça e não pela mídia. Se vc alegar 'ah, mas com os petistas ninguém se mobilizou por um julgamento justo...', vou concordar com vc. Erraram feio. No entanto, não posso falar pelos outros. Preciso ser coerente com minhas convicções e não com as dos outros. Coloquei-me contra toda a sujeirada que foi feita contra o PT e agora me coloco contra estas ilegalidades que estão sendo cometidas. Aliás, é o que representantes do PT aqui do RJ tb têm feito. 

Em suma, se a polícia realmente têm tantas provas contra estas pessoas, por que não permitem o acesso à elas aos advogados de defesa? Por que o acesso só foi dado pra Globo? Será que não tenho razões para desconfiar? Não estou nessa de 'exigimos liberdade para os presos políticos'. Apenas não confio na Globo e acho que todos, sem distinção, têm direito a um julgamento justo. Não concordo com condenação midiática de pessoas que nem sequer foram julgadas. Só isso."
Respondi:
"Desconfio da Globo tanto quanto desconfio dos acusados. 

Aliás, pelo que sei, as acusações e os pedidos de prisão não foram feitos pela Globo, e sim pela polícia civil do RJ e pelo ministério público. Portanto a crítica deveria ser dirigida à polícia, ao MP e ao juiz que autorizou. 

É bem possível que tenha havido alguma ilegalidade por parte da polícia e até do MP. Mas quando é que não houve? 

Bom lembrar que o poder ilimitado do MP para participar de investigações criminais foi garantido quando barraram a PEC 37 no Congresso, ano passado, com o apoio de muitos dos que hoje se consideram vítimas de arbitrariedades. 

A PEC 37 pretendia impedir definitivamente que, quem tem a função de acusar, pudesse ter ingerência sobre a investigação de um crime, para que a apuração dos fatos não corresse o risco de ser contaminada, como costuma ser, pelo objetivo prévio de condenar. 

PSOL e PSTU fizeram campanha junto com a Globo dizendo que a PEC 37 tinha que ser derrubada porque serviria para proteger corruptos e mensaleiros. Ninguém desconfiou da Globo nessa hora.

Pois foi o ministério público que pediu as prisões que dizem agora ser arbitrárias. 

O artigo postado por você pergunta: quem tem medo da Sininho?

E eu te digo: ninguém. Ela é só uma desmiolada, deslumbrada com a fama que a Globo lhe deu. Nem ela, nem os black blocs ameaçam a burguesia. Foram, ao contrário, úteis, quando a burguesia precisava de algo para tentar desestabilizar um governo, até junho de 2013, muito bem avaliado. 

Foram úteis, não são mais. E estão encarando agora a realidade da justiça brasileira padrão Joaquim Barbosa. Um padrão que aplaudiram tanto quando usado contra petistas. 

Não resisto, aplaudo, agora é minha vez . Sinto-me vingado, sim, quando lembro o riso sádico, a crueldade dessa gente, hoje vítima, que festejou o martírio moral e físico de Dirceu e Genoíno, a cada decisão ilegal e arbitrária, tomada pelo STF. 

Se têm ao PT como inimigo e até se aliam à burguesia para tentar destruí-lo, não podem esperar dos petistas solidariedade. Por mim, a direção do PT não os apoiaria."
Glória disse:
"Bom, se vc prefere a vingança, eu prefiro a legalidade. Fiz campanha a favor da PEC 37. O que aconteceu foi que a Globo se aliou ao MP e vendeu a sua versão, divulgando uma interpretação totalmente mentirosa sobre do que se tratava, e teve quem acreditasse. É disso que falo. 

É por isso que a Globo se mantém. Ela mente pra eles contra quem entendem como inimigos, eles acreditam e o alvo da mentira se sente e é prejudicado. A Globo? Fica forte. Num segundo momento, ela inverte o foco das mentiras e a história se repete, só que do lado oposto. A Globo? Fica ainda mais forte. Enfim, assim fica difícil desmascará-la. Ela vai ter sempre alguém que, confiando ou não, vai 'acreditar' no que divulgar, sem se preocupar se são mentiras ou não; só por vingança. 

O mais 'engraçado' (ou triste) é que ambos os lados vivem a gritar aos quatro ventos que ela não tem credibilidade. Agora, quando convém..."
No dia seguinte, 25, respondi-lhe:
"Acho que você não leu direito o que eu escrevi. Eu disse que as acusações e os pedidos de prisão não foram feitos pela Globo, e sim pela polícia civil do RJ e pelo ministério público. Portanto a crítica deveria ser dirigida à polícia, ao MP e ao juiz que autorizou. Os vazamentos seletivos de trechos da investigação, idem. 

Não se trata, portanto, de acreditar na Globo. Trata-se de acreditar ou não na investigação e na denúncia da polícia civil e do ministério público, acolhidas, a princípio, pelo Judiciário, como suficientes para justificar a prisão preventiva.

O que aconteceu foi que PSOL, PSTU e black blocs se aliaram à Globo e ao MP para derrubar a PEC 37. E foi o MP que fez o pedido de prisão preventiva e, muito provavelmente, os vazamentos para a Globo, também. Por que ignorar este fato? A esquerda burra está colhendo o que plantou.

Não sou hipócrita. Não vou dizer que lamento a lição que esses idiotas estão levando. Lembro de uma figura que vi no Facebook, que se auto-intitulava em se perfil como 'vândala profissional'. Aparecia na contabilidade que a energúmena da Sininho, não sei porque que cargas d'água, resolveu postar na rede. Era a certeza da impunidade. 

Esse pessoal não tinha a menor noção da própria fragilidade e da força dos setores sociais que estava provocando. Acharam que iam dar prejuízo à burguesia e à pequena burguesia, que iam atentar contra a vida de policiais e ia ficar barato? 

Até que vai, segundo o desembargados Siro Darlan. Caso condenados, a pena é tão pequena que, sendo primários, poderá ser convertida em multa. Mas se insistirem nessa estúpida tática black bloc, vão acabar com as próprias vidas e ainda ajudar a direita a justificar perante a sociedade o endurecimento da repressão aos movimentos sociais."
Ela retrucou, na mesma data:
"Em primeiro lugar, não foram 'vazamentos seletivos de trechos da investigação' que chegaram à Globo. Foi o relatório completo. Quem selecionou o que queria destacar e editou da forma como quis foi a Globo. E manipular informações para que se adequem aos seus interesses, eles sabem fazer muito bem. Agora mesmo, estava assistindo à matéria do Jornal da Globo sobre a repercussão da nota, na qual o Itamaraty posiciona-se contra o massacre de Gaza. Tive que desligar a TV. Simplesmente, nojento.

Vc tem razão em relação à culpa pelo vazamento ser do MP (tb acho e já escrevi isso aqui em vários comentários de outras postagens), mas isso não tira a responsabilidade da Globo pelo tom condenatório que tem utilizado na produção das matérias. Jornalismo serve para informar, não para julgar e condenar. Se seguirmos esta tua linha de pensamento, seríamos obrigados a 'inocentar' a Globo tb no caso do mensalão. Afinal, da mesma forma, quem apresentou a denúncia foi o MP e quem acolheu foi o Judiciário. 

Pelo visto, vc não conhece bem o MP. Não te culpo. Eles têm um trabalho de marketing muito bom. A maioria das pessoas vê os promotores como guardiões da justiça. Na real, embora realmente existam muitos que fazem jus ao cargo que ocupam, outros tantos estão mais preocupados em aparecer do que fazer justiça. É uma vaidade exacerbada, uma busca constante por um espaço na mídia. Igualzinho aquele delegado da Escola Base, que foi o estopim do escândalo de injustiça que todo mundo já conhece. 

Acolhimento pelo Judiciário também não significa que haja provas suficientes para justificar as prisões. Contra o Dirceu, por exemplo, não havia provas e as denúncias contra ele foram acolhidas, não foram? Ele foi até condenado. O caso dele é apenas um entre muitos e muitos. Posso te garantir isso e não é de ouvir falar. 

A tal contabilidade que foi divulgada pela imprensa, como se fosse para atos de violência, foi um grande engodo. O dinheiro arrecadado era para uma festa de natal para pessoas de rua. Estava sabendo e fui inclusive convidada para este evento. Por um acaso da vida, meu nome não aparece nesta lista. Tive um contratempo e não pude participar, mas vi as fotos logo depois da festa. A postagem não foi pela certeza da impunidade. Foi uma prestação de contas a quem contribuiu. Engraçado que, na tal lista, esta o nome de um juiz (e este eu conheço) que luta pela moralização do Judiciário no Rio de Janeiro. Já foi até ameaçado de morte por isso... Pra muita gente, é super interessante que a imagem dele seja manchada. 

Pra fechar, pergunto: Vc conhece pessoalmente estas pessoas? E as que cometeram os crimes? Eu não. Por isso, não as defendo, mas tb não as acuso. Vc teve o processo nas mãos ou está baseando tua convicção de culpa em supostas provas mostradas pela mídia (leia-se Organizações Globo, detentora exclusiva dos direitos de divulgação das informações sobre este caso)? Vc tem certeza absoluta de que estas pessoas que foram presas são realmente as mesmas que praticaram os atos criminosos? Não te passa pela cabeça, nem por um minuto, que podem estar sendo apresentadas como culpadas para 'satisfazer a sociedade', enquanto que os verdadeiros culpados podem estar por ai, livres, sem nenhuma ameaça, rindo à toa? Não sei vc, mas eu não tenho as respostas. Por isso, repito, não posso inocentá-las, nem condená-las. Só quero que tenham um julgamento justo."
Eu disse, então, concluindo:
"Não se preocupe, eles terão. Sabe porque? Porque não são pobres, não são pretos e não são petistas."

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O que é criminalizar manifestações populares?

Criminalizar manifestações é permitir que elas sejam instrumentalizadas por quem quer cometer crimes. É admitir que criminosos sejam categorizados como manifestantes, misturando o joio com o trigo e degradando o próprio caráter das manifestações legítimas.

As gravações das escutas telefônicas da polícia, mostram que os tais "manifestantes" presos ou foragidos, não tinham apenas a intenção de cometer crimes, como se anda alegando. Eles cometeram crimes de forma continuada durante meses, e se preparavam para cometer novos delitos.

Pois que respondam pelos seus atos e que as manifestações possam voltar a ser pacíficas.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A "bomba do Riocentro" do PSOL.

Militantes e simpatizantes do PSOL têm reclamado muito da repercussão que se tem dado ao assassinato do cinegrafista da Band. Dizem que nove manifestantes morreram desde junho e não se deu tanta atenção. Estaria havendo, segundo eles, perseguição política ao PSOL. A Globo, de quem o partido tem sido aliado desde 2005, na sustentação da mentira do mensalão, contra o PT, subitamente teria passado a vê-los como inimigos, iniciando a campanha insidiosa. Acostumados a ser pedra, não estão gostando nada de virar vidraça. Parece que a Globo está descartando mesmo o PSOL. Não precisa mais dos amarelos.

Mas a queixa dos psolistas de que a indignação da imprensa, de um modo geral, está sendo seletiva, porque não dá tratamento igual a outros casos, não se justifica. Pergunto: quantas dessas outras mortes, ocorridas desde junho em protestos, foram fotografadas e filmadas? Quantas foram tão espetaculares quanto a de Santiago Andrade? Descrevo brevemente. Um rojão, chamado de Treme-Terra, explodiu na cabeça dele, afundando-lhe o crânio, arrancando-lhe uma orelha e partes do cérebro. Enquanto ele arriava o corpo em direção ao chão, luzes coloridas emolduravam a sua queda. A cabeça literalmente aberta, o sangue jorrando e um socorrista tentando estancá-lo, sem sucesso, em meio à confusão e aos gritos dos que se precipitaram a acusar a polícia. Imagens impactantes, captadas de vários ângulos, e que ganharam o mundo através das agências de notícias. Que outra morte de manifestante se deu nessas circunstâncias? Acho que nenhuma. Como então lhe ser indiferente? Não dá. Como tratá-la do mesmo modo que às outras mortes em protestos? Acresce o fato de a vítima ser um trabalhador da imprensa, algo que mobiliza estes profissionais, preocupados com a segurança da categoria, e o oportunismo dos donos das empresas de comunicação, que logo alardeiam, como se tem visto, ameaças à liberdade de expressão.

Se os precipitados manifestantes que cercaram o corpo de Santiago Andrade tivessem razão, se ele tivesse sido atingido por um disparo da polícia, Cabral seria chamado de assassino. Como as imagens mostraram black blocs, ninguém fala em assassinato e surgem as teorias de conspiração contra o PSOL. Ora o PSOL sempre apoiou os black blocs, nunca os condenou por suas ações violentas e sempre lhes deu assistência jurídica quando foram presos. Isso é do conhecimento público. Sempre houve uma associação. Cabral seria assassino se a polícia tivesse matado Santiago Andrade. Os black blocs matam o cinegrafista e o PSOL, que sempre os apoiou, não tem nada a haver com isso? A morte de Santiago Andrade é a bomba do Riocentro do PSOL. Estourou, no colo do partido, a morte cinematográfica de um trabalhador, uma morte brutal que chocou a sociedade e bota em xeque a opção política do PSOL de apoiar a violência gratuita e desnecessária dos black blocs.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Usina de teorias da conspiração em ação.

A usina de teorias da conspiração anda trabalhando a todo vapor esses dias. Estão dizendo agora que o Caio Silva de Souza é esse integralista mais alto, de óculos, que aparece nestas fotos, cujas legendas dizem ser José Eduardo Moura Viana, da cidade de Barbalha, Ceará. É, parece que a moçada tá desesperada prá encontrar alguma sujeira do Cabral que salve a pele do PSOL. Esse rapaz, o José Eduardo, não passaria nunca num concurso de sósias do Caio que foi preso. Os caras são completamente diferentes. 

Antes já tinham dito que o verdadeiro assassino não era o Caio, que era um outro cara de camisa cinza suada, supostamente P2, que apareceu ao lado dos PMs num vídeo. Não era. O cara apareceu e se identificou. Chama-se Tomaz Cesário Alvim Martinelli e não tem nada a haver com a polícia. Tem gente que ainda não se convenceu que o Caio é mesmo o cara que aparece na foto, de costas, correndo. Dizem que o cara da foto é branco e mais forte. Ainda não vi nenhum perito criminal de verdade corroborando essa tese, só uma porção de gente chutando palpite. Curiosamente, os que dizem que o cara da fotografia não é Caio Silva de Souza, são quase sempre os mesmos espertos que dizem que o Caio Silva de Souza é o integralista cearense aí das fotos.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Santiago Andrade morreu. Fora black blocs assassinos!


Santiago Andrade: Trabalhador, vítima da violência dos black blocs. (3)

Santiago Andrade: Trabalhador, vítima da violência dos black blocs. (2)


Santiago Andrade: Trabalhador, vítima da violência dos black blocs. (1)

Quem são os assassinos de Santiago Andrade?

Se a polícia do Rio de Janeiro tivesse matado Santiago Andrade, Sérgio Cabral seria chamado de assassino. Mas quem matou Santiago Andrade não foi a polícia, foram os Black Blocs. Eles e todos os que os incitaram, apoiaram, justificaram ou se omitiram ante seus crimes, desde junho passado.

O PSOL é assassino. Marcelo Freixo é assassino. Chico Alencar é assassino. São cúmplices da morte brutal de um trabalhador inocente e da transformação de um jovem estudante e trabalhador num homicida. Toda manifestação de pesar que façam sobre este caso, não será mais que odiosa hipocrisia, se não vier acompanhada de uma auto-critica em que assumam suas responsabilidades.

Tentar transferir a culpa da tragédia para o Estado será subestimar a inteligencia dos trabalhadores. Quem estimulou ou foi tolerante com os protestos violentos é responsável pela perda de uma vida humana e pela desgraça de pelo menos duas outras. Os velhos dirigentes da esquerda burra e inconsequente, roubaram a vida do trabalhador Santiago Andrade e mataram a liberdade e o futuro do jovem Fábio Raposo e seu comparsa.

Quem planta e cultiva a violência não pode colher senão mais violência e eventos trágicos. Menos de um ano de ações Black Bloc e já se colhe no Brasil uma morte. Quantas mais serão necessárias para que se entenda, de uma vez por todas, que trilhar este caminho não vai tornar o país nem mais democrático, nem mais socialmente justo, pode, ao contrário, levar o Brasil para o abismo profundo da barbárie e do autoritarismo?

Joaquim Barbosa, os Black Blocs e os linchadores do Flamengo, são expressões da visão deformada de justiça que tem tentado se impor à nossa sociedade. A justiça fora da lei, de que eles se propõem ser agentes, é a negação da própria democracia, porque só a lei institui direitos e pode estabelecer mecanismos para protegê-los. Eles abominam a lei porque não suportam a democracia.

Mais do que ano de eleições ou ano da Copa, 2014 deve ser o ano de reafirmar a democracia no Brasil, dizendo NÃO às intenções fascistas que estão por trás dos discursos e atos justiceiros. Que a morte de Santiago Andrade sirva de lição ao país, e que a partir de agora sejamos menos tolerantes com a transgressão da lei a pretexto de fazer justiça.

Os Black Blocs e os linchadores das ruas, da mídia e do Supremo são ameaças reais à democracia brasileira que precisam ser contidas, antes que provoquem ainda mais prejuízos à nação. Basta de violência contra a vida e contra a reputação de inocentes! Basta de prepotência e covardia contra os mais fracos! Basta de terror nas ruas, nos tribunais e nas manchetes! A democracia do Brasil não pode mais admitir esses ultrajes.

sábado, 26 de outubro de 2013

Educando para o capitalismo. (2)

Os professores do Rio deram uma bela lição a seus alunos com essa greve que fizeram. A lição é a seguinte:

Quando tiver um objetivo, faça o que tiver que fazer para alcançá-lo, mesmo que tenha que sacrificar o direito alheio, mesmo que o direito ferido por você seja o de alguém menor, mais fraco, mais pobre, mesmo que seja o direito de alguém inocente e indefeso.

Não há nada mais capitalista do que essa ética perversa que os professores grevistas acabaram de ensinar a seus alunos. Belos "educadores".

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Educando para o capitalismo. (1)

Os professores do Rio estão dando uma bela lição a seus alunos com essa greve que estão fazendo. A lição é a seguinte:

Quando tiver um objetivo, faça o que tiver que fazer para alcançá-lo, mesmo que tenha que sacrificar o direito alheio, mesmo que o direito ferido por você seja o de alguém menor, mais fraco, mais pobre, mesmo que seja o direito de alguém inocente e indefeso.

Não há nada mais capitalista do que essa ética perversa que os professores grevistas estão ensinando a seus alunos. Belos "educadores". Merecem mesmo um bom aumento.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Culpa do Estado?

O Estado dá razões que justificam a luta dos professores. Mas não determina a forma de luta. Essa é uma escolha dos professores. E eu considero que eles fizeram uma escolha errada.

E por que considero que a greve é uma escolha errada dos professores? Porque a greve penaliza injusta e pesadamente os alunos das escolas públicas. Ela é, na prática, uma supressão temporária de direitos fundamentais das crianças e adolescentes, filhos de trabalhadores pobres.

Esse ataque deliberado aos direitos dos filhos do trabalhadores pobres, além de ser eticamente condenável, por ser uma evidente crueldade e covardia, cria um antagonismo de interesses dentro da classe trabalhadora, que a divide e enfraquece perante a burguesia. Sou contra a greve na escola pública porque ela penaliza inocentes desnecessariamente. Sim, desnecessariamente!!!

A greve não é a única forma de luta capaz de desgastar o capital político de Cabral e Paes, e pressioná-los ao atendimento das demandas dos professores. Manifestações pacíficas de rua, reunindo professores, pais, alunos e todos os que são solidários à causa do professores, seriam muito mais eficientes e não teriam o tremendo custo social e humanitário que essa greve tem gerado.

Sou solidário com a causa dos professores. Não com sua equivocada forma de luta.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Com professores em greve, alunos do RJ estudam sozinhos para o Enem.

Por Silvio Melgarejo - Reproduzo aqui notícia do UOL, que mostra o lado da greve dos professores que seus apoiadores de classe media ignoram ou simplesmente desprezam. O prejuízo causado aos estudantes, filhos dos trabalhadores pobres.

Com professores em greve, alunos do RJ estudam sozinhos para o Enem


Do UOL, no Rio
26/09/2013 - Pela internet, com a ajuda da irmã mais velha, em grupos de estudo ou até nos intervalos do trabalho. Enquanto uma parcela dos professores da rede estadual do Rio de Janeiro continua em greve, mesmo após decisão da Justiça que suspende o movimento, essas foram algumas das alternativas encontradas por alunos do 3º ano do ensino médio do Rio para enfrentar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), daqui a um mês, nos dias 26 e 27 de outubro.

Para quem não tem condições de pagar um curso pré-vestibular, vale qualquer estratégia para tentar "salvar o ano" e conseguir ingressar no ensino superior já em 2014. A maioria dos alunos, no entanto, demonstra desânimo e preocupação com os efeitos da interrupção das aulas de algumas disciplinas, desde 8 de agosto, no resultado da avaliação. Os professores se reúnem em assembleia na tarde desta quinta (26), na Tijuca, zona norte do Rio, para discutir os rumos do movimento.
Nesta quarta-feira (25), o UOL ouviu estudantes da Escola Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, zona sul do Rio de Janeiro, apontada pela Secretaria Estadual de Educação como uma das mais afetadas pela greve dos docentes.
"O ensino estadual já não é bom, sem professores, então, é ainda mais complicado. A gente tem que se redobrar em mil", diz Alessandra Martins, 17 anos, que diz assistir a videoaulas na internet para tentar compensar a falta de alguns professores. "Também entro em alguns sites e blogs especializados e respondo simulados de provas antigas do Enem".
Para Talita Castro, 19, a greve pode ser determinante para o resultado do Enem. "Ter um professor para explicar dá muito mais chances de tirar uma nota boa", afirma a estudante, que tem estudado com colegas. "Fazemos um grupo de estudos, trocamos apostilas e nos ajudamos" diz Talita. Além disso, ela conta com o auxílio da irmã mais velha, que é pedagoga e mora com ela. Talita pretende cursar engenharia de alimentos.

Sem aulas


Na turma de Patrick Richard, 18, mais ou menos 40% dos professores estão em greve, segundo ele. "Não tenho aulas de história, espanhol, religião, sociologia e filosofia. E matemática voltou só há pouco tempo", lista. Para compensar os assuntos perdidos, ele conta que está estudando em casa, com o auxílio de livros e da internet, e em eventuais momentos de tempo livre durante o estágio.
"Meus estudos ficaram conturbados. A greve afetou minha rotina e pode atrapalhar meu desempenho na prova. Eu já sou aluno de escola pública. Com a greve, aumenta ainda mais a distância da gente para os estudantes de colégios particulares, que estão com tudo em dia", comenta Patrick, que deseja cursar ou engenharia ou arquitetura, de preferência em uma instituição pública. "A luta dos professores é justa, mas quem acaba perdendo mais é a gente", reclama.
Morador do Complexo de Lins, na zona norte do Rio, Danilo Cavalcanti, 18, demora mais de uma hora para chegar ao colégio. "Às vezes tenho que acordar 5h da manhã", diz. "E agora, quando chego, às vezes só tenho uma aula. É complicado, porque eu trabalho em uma farmácia e o tempo que eu tenho pra estudar é mais o da escola mesmo", lamenta Danilo, que diz estar tendo aulas apenas de química, biologia, matemática e português.
Amigo de Danilo, Douglas Rodrigues, 18, está mais confiante. "A greve atrapalha o nosso rendimento, mas acho que tenho condições de fazer um bom Enem porque estudo em casa", afirma. Ele disse que pretende cursar geologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ou na UERJ (Universidade Estadual do Rio).
Apesar de preocupada, Yasmin Barbosa, 17, já está preocupada com os efeitos da greve na faculdade. "Depois os professores vão reclamar que quem passa por cota chega despreparado no ensino superior, mas não é nossa culpa", defende.

Greve dos professores: debate com um companheiro do PT (2º round).

Por Silvio Melgarejo - Dando continuidade ao debate iniciado ontem com o companheiro Ricardo Quiroga, atual presidente do 1º Diretório Zonal do PT-Rio/RJ e candidato a presidente do Diretório Municipal neste PED, sobre a greve dos professores, reproduzo aqui a mensagem que lhe enviei hoje, através da lista de e-mails do 1º DZ.


Vamos lá, Ricardo.


"Ainda não tenho filhos, mas estudei em duas universidades públicas, UERJ e UFRJ, que passaram por diversas greves. E sempre as apoiei, ainda que ao custo de estudar no tórrido verão carioca." (Ricardo Quiroga)

Parece que você não entende que há uma diferença muito grande entre "sacrificar-se" e "impor sacrifício". Você apoiou as greves da sua faculdade. Mas apoiaria uma greve que prejudicasse os seus filhos, se não tivesse meios para compensar-lhes a falta de aulas?

"Ser contra a greve no serviço público(e todos de certo modo são essenciais) é ir para além do que impunha a ditadura militar. Aliás, se considerarmos dentro do serviço público as concessionárias,aí simplesmente não dá mais para fazer greve em grandes setores.
Como eu disse, qual é o setor da economia no qual se faz greve e que não afete a população?
E aí, o custo/benefício varia de acordo com os atingidos. Uma greve em uma obra pode afetar todo seu entorno, a economia local, e inclusive os usuários que seriam beneficiados por esta. Uma greve de garçons impede a população que trabalha na rua se alimentar fora de casa. Uma greve de faxineiros impede a limpeza e consequentemente pode afetar a saúde das pessoas. E assim vai." (Ricardo Quiroga)
Comparar o mal que se faz a uma criança indefesa ou a um adolescente que está começando a vida com prejuízos materiais e aborrecimentos perfeitamente contornáveis por adultos, é constrangedoramente absurdo, Ricardo. Revela ausência total de senso de medida e proporção, e uma falta de sensibilidade social que a mim choca ver dentro do PT.
Parece que você não leu com a devida atenção os textos que eu tenho publicado, ou não leu nada, ou leu com atenção e, ainda assim, não entendeu xongas. A resposta que dei hoje à Eugênia, no post "Greve no setor público: debate com dois companheiros do PT", responde também aos argumentos que você está apresentando aqui agora. Leia por favor. 

"Por fim, vejo um argumento meio telepático. Alguém aqui pode dizer que sabe a opinião média dos pais e alunos de escolas públicas?" (Ricardo Quiroga)
Precisa de pesquisa de opinião prá saber se as pessoas estão gostando ou não de ser prejudicadas? Será que você não tem empatia com o próximo, não tem consciência? Há mais de dois mil anos já se ensinava que se colocar no lugar do outro é a melhor maneira de saber se um ato é certo ou errado, justo ou injusto, benéfico ou prejudicial.
"Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas". 
(Evangelho de Mateus, capítulo 7, versículo 12 - Sermão da Montanha)
"Tratai todos os homens como quereríeis que eles vos tratassem". 
(Evangelho de Lucas, capítulo 6,versículo 31)
Eu não tenho filhos, Ricardo, mas consigo sentir perfeitamente a angústia e a revolta impotente dos pais pobres das crianças e adolescentes que estão tendo os seus direitos aviltados. Como pode um socialista não ter essa sensibilidade? 

"Aliás, quem tem ido aos atos dos profissionais da educação? O que se tem visto é o Eduardo Paes tentando cooptar os pais, denegrindo os educadores." (Ricardo Quiroga)
O Paes está ocupando um espaço político que ficou vazio, porque os professores optaram por não ocupar. Preferiram fazer um movimento corporativista, decidido e desenvolvido apenas pela categoria, do que um movimento classista, decidido e desenvolvido por toda a classe trabalhadora, envolvendo servidores e usuários do ensino público. O que eu tenho dito é exatamente que, no setor público, o corporativismo, principalmente quando recorre à greve, divide a classe, isola o servidor, e cria as condições para que o governante se aproxime do usuário em busca de uma aliança com ele. Estamos falando de política, Ricardo. 
Os pais e alunos têm interesses que os professores não estão respeitando. Eles querem uma solução para o seu problema que é a falta de aulas. O governo está fazendo o movimento óbvio prá quem entende um mínimo de política. Está tentando fazer uma aliança com os pais e alunos para isolar os professores e derrotá-los na opinião pública. Uma aliança com os pais e alunos, que os professores não quiseram fazer quando iniciaram o seu movimento, bem antes da greve. Quem tinha tudo para ser aliado, foi desprezado e agredido. Agora é tarde prá tentar o diálogo. Consumou-se a traição de classe. Estabeleceu-se a divisão, o conflito de interesses, o "cada um por si". Os professores escolheram o isolamento e praticamente jogaram os pais e alunos nos braços do governo. Quem está cooptando os pais e alunos para o governo são os próprios grevistas.
Muita gente tem se iludido com o tamanho das manifestações de apoio aos professores. Ignoram ou fingem não saber, que a imensa maioria dos pais e alunos de escola pública está ausente desses atos. Assim como em junho, a violência policial é que tem sido o fermento das passeatas. É o repúdio à brutalidade da repressão que tem animado muita gente a se solidarizar com os mestres. E o apoio à greve, quando há, vem unicamente de quem não é vítima da greve, de quem não sabe o que é pobreza ou de quem não é capaz de se colocar no lugar do outro. Parece que tem muita gente assim no PT, pelo visto.

Mais ainda, como alguém pode afirmar levianamente que os professores não prejudicam os próprios filhos porque estudarão com eles? Os professores estão quase 24 horas nas ruas, em assembléias e atos. É a greve mais mobilizada que vejo em duas décadas.
Ricardo, ou você não sabe nada de movimento social ou julga que aqui ninguém nunca participou de um. Ou, quem sabe, deve achar que só tem aqui gente desinformada, que além disso não conhece nenhum professor grevista. Não é, posso te garantir, o meu caso.
Em primeiro lugar, qualquer sindicalista sabe que, em categorias muito numerosas, como é o caso dos professores, uma minoria ínfima participa de manifestações de rua. Podem ser muitos, mas são ínfima minoria. Em segundo lugar, só fica na rua 24 horas, durante 2 meses, quem não tem responsabilidade com a família ou quem não tem família prá cuidar. 
[Por que será que estou tendo a sensação de estar conversando com um de meus alunos adolescentes? Devo mesmo estar ficando muito velho.]
Portanto, os professores tem tido tempo de sobra, sim, prá se dedicar exclusivamente a cuidar da educação dos próprios filhos, e compensar-lhes a falta das aulas em suas escolas.

"Penso que a nossa discussão prioritária aqui é o que cada um dos petistas está fazendo para apoiar uma categoria massacrada pela prefeitura e estado. Muitos estão indo às ruas. Outros estão em plenárias petistas discutindo o que fazer." (Ricardo Quiroga)´
E qual destes está pensando nos filhos dos trabalhadores pobres, nas crianças e adolescentes que estão há mais de 2 meses sem aula, no prejuízo imenso que isso representa para as suas vidas? Massacrados eles sempre foram, pela burguesia, muito mais do que os professores. E agora são os professores que lhes impõem mais esse pesado e injustíssimo tributo, que é a cruel supressão de seus direitos ao ensino. Estão pisando no sonho destes jovens e de suas famílias de construírem um futuro melhor através do estudo. Como pode gente de esquerda, que se diz democrata e socialista, como pode um petista virar as costas a quem mais precisa, naturalizando e até justificando as privações impostas a esses meninos e meninas?
Iniciei o texto em que proponho o debate sobre a greve no setor público, lembrando o ditado que diz que "na briga do mar contra o rochedo, quem sofre é o marisco". Esse ditado me parece perfeito prá ilustrar o drama que estamos acompanhando. O rochedo é o Estado, com sua imponência e rigidez. O mar é a categoria dos professores, arremetendo contra o Estado em ondas. E os mariscos, agarrados ao rochedo, sob as vagas inclementes, são os estudantes da escola pública, esmagados entre os dois gigantes que se digladiam, Estado e professores.
Eu estou com os pequenos e frágeis mariscos, de destino incerto ante a tormenta que sobre eles se abate. Estou com os brasileirinhos e brasileirinhas da escola pública, cujos pais são meus irmãos em Deus e meus irmãos de classe. Não consigo e não quero lhes virar as costas e me dói a indiferença que por eles tem a classe media. Vejo gente aos montes na internet solidária aos professores e nenhuma voz solidária aos estudantes. Dá-se com eles o triste fenômeno da invisibilidade social. Ninguém os ouve, ninguém os vê, ninguém percebe sua presença e existência. Como é surpreendente e triste ver dentro do PT essa surdez, essa cegueira, essa insensibilidade que eu julgava só haver em partidos de direita. 

Respeitem os alunos da escola pública.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A indiferença da classe media pelo filho do trabalhador pobre.

Muita gente tem manifestado apoio à greve dos professores da rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Ninguém fala do prejuízo causado às crianças.

O mau exemplo dos professores.

Greve é estratégia de luta egoísta quando fere os direitos dos mais pobres.

Por Silvio Melgarejo - Toda greve tem um custo social que varia conforme a categoria. Mas dentre todas, as mais socialmente onerosas são as greves na educação e na saúde pública, por afetarem exatamente a população mais pobre, que depende da ação estatal para ter seus direitos mais elementares assegurados.

A greve nesses casos é eticamente condenável, por constituir ação prejudicial de um grupo social contra outro ainda mais vulnerável que ele.

Do ponto de vista da luta de classes, tem um caráter regressivo, porque divide a classe trabalhadora ao estabelecer um evidente conflito de interesses entre servidores e usuários dos serviços públicos.

E mesmo do ponto de vista do interesse das categorias grevistas, no caso agora os professores, a greve tem se mostrado uma forma de luta ineficiente, que não tem permitido a estes trabalhadores alcançarem seus objetivos.

A lógica da greve no hospital e na escola pública é diferente da lógica da greve numa fábrica capitalista. Nesta o alvo é o capital financeiro do burguês. Naquelas o alvo é o capital político do governante.

Ao cruzar os braços, o servidor público suspende deliberadamente direitos dos usuários dos serviços públicos, e tenta atribuir essa suspensão de direitos ao governante. Com isso visa desgastar a imagem do político e do partido que estão no poder, como forma de pressioná-los ao atendimento de suas demandas.

Mas quem disse que suspender os já mal garantidos direitos dos trabalhadores pobres é a única forma de desgastar a imagem de um governo?

Há dois meses os filhos dos trabalhadores pobres estão sem aula, enquanto os filhos da burguesia e da classe media não passam um dia sem ir à escola para investir nos seus futuros. Essas crianças estão sendo sacrificadas sem necessidade. Pagam injustamente pelo corporativismo, pela burrice e pelo conservadorismo das lideranças sindicais dos professores e das vanguardas de todos os partidos de esquerda, que compartilham da mesma visão equivocada.

Do ponto de vista pedagógico, da formação do caráter dos pequenos cidadãos, que lição estarão dando os professores aos seus alunos? Ouço alguém dizer que eles merecem apoio porque lutam por direitos. Mas será justo lutar por direitos, ferindo direitos de gente indefesa? É esse o exemplo que pretendem dar a estas crianças? De que vale tudo para conquistar o que se quer, até os atos mais covardes?

Greve no setor público: debate com dois companheiros do PT.

Por Silvio Melgarejo - No debate aberto pela publicação dos posts anteriores sobre a greve no setor público, dois companheiros do PT expressaram opiniões concordantes entre si e divergentes da minha. Curiosamente os dois pertencem a tendências rivais dentro do partido. A companheira Eugênia Loureiro é da Construindo um Novo Brasil (CNB), e o companheiro Ricardo Quiroga é da Articulação de Esquerda (AE). Destaco este fato porque ele parece indicar que o corporativismo abrange mesmo um amplo espectro de tendências, na vanguarda do partido.

Reproduzo abaixo as duas mensagens que publiquei hoje na lista de e-mails do 1º Diretório Zonal do PT-Rio/RJ, agradecendo à companheira Eugênia e ao companheiro Ricardo a oportunidade de estar debatendo com eles.

Mensagem a Eugênia Loureiro


Olá, Eugênia. Obrigado pelo comentário. Vou tentar responder ponto a ponto. Ok? Vamos lá.


"Isso tudo é mais fácil de falar do que fazer." (Eugênia)

Não defendo o mais fácil. Defendo o que acho justo. E o justo, muitas vezes, é mesmo o mais difícil. O que não quer dizer que devamos renunciar a ele. Certo?



"Não concordo com essa idéia de que os funcionários públicos não possam fazer greve." (Eugênia)

Vamos colocar as coisas sobre outra perspectiva. Você concorda com a ideia de que a classe trabalhadora pode ficar sem serviços públicos? Eu não. Por isso sou contra a greve.



"Exatamente porque estamos no século XXI, greve do setor público é possível. Na ditadura militar era crime, passível de punição." (Eugênia)

As greves reprimidas sempre foram as que ameaçavam o lucro e o poder da burguesia. A greves na educação e na saúde públicas não ameaçam nenhum pouco o lucro e o poder da burguesia. Ferem, isto sim, e em cheio, os direitos da própria classe trabalhadora, que só podem lhe ser garantidos pela ação estatal.



"Certamente, podem existir outras formas complementares de mobilização." (Eugênia)

As formas de mobilização que você tem como complementares, eu defendo que sejam as principais e únicas, porque são elas as únicas que permitem o estabelecimento de pactos entre servidores e usuários, para atuação conjunta, em torno de pautas unificadas. Isso representaria um significativo salto qualitativo do sindicalismo brasileiro, que evoluiria do corporativismo, que divide a classe e isola as categorias, para o classismo, que une a classe pela conexão entre setores e categorias.



"Mas aos pais caberia apoiar a mobilização e ajudar na definição dos rumos do movimento, uma vez que os métodos de ensino em princípio não deveriam interessar só aos professores, da memsa forma que professores bem pagos e com tempo para pesquisa., complementação de formação etc." (Eugênia)

Não quero ser invasivo, nem indiscreto, Eugênia, me responda se quiser, senão considere esta pergunta apenas retórica. Aonde estudam as crianças da sua família, seus filhos, netos ou sobrinhos? Nas escolas públicas paralisadas ou nas particulares, onde os meninos estão tendo aula normalmente? Eu tenho um palpite, se me permite. Eles devem estudar em escolas particulares. Eu suponho que você deva amar muito suas crianças, e não acredito, francamente, que quem ama seus filhos, sobrinhos ou netos possa concordar que eles sejam sacrificados, para prestar solidariedade a pessoas que demonstram total desprezo por eles, ao violar seus sagrados direitos ao ensino. Quem depende de verdade do serviço público é contra as greves de servidores. Só apoia greve em hospital e escola pública, quem tem plano de saúde e os filhos matriculados em escola particular. Pais que apoiam greves prejudiciais aos seus filhos, não têm amor real por eles.



"Não é verdade também que o setor público é o único que afeta nossas vidas. A greve dos bancos idem. Isto sem falar que é uma situação que só os bancos públicos realmente aderem. Em nome da greve várias operações deixam de ser feitas ou entram nam aior lentidão. A questão dos transportes idem. Motoristas e cobradores andam descontando em cima dos passageiros. Tudo isso me parece muito mais sinais de uma sociedade que se organiza e precisa se organizar. Motoristas e cobradores sempre fizeram movimento junto com os patrões/donos das companhias de ônibus. Como ando de ônibus, percebo que eles querem dar passos em outra direção ou não. Mas nessa tentativa descontam nos passageiros. Sabemos que não é por aí." (Eugênia)

Quando você diz "as nossas vidas", parece sugerir que todas as vidas na sociedade são iguais, que todos têm os mesmos recursos e possibilidades de autodefesa. Você sabe perfeitamente que as coisas não são assim. Nós vivemos num país ainda muito desigual, onde há populações com maior renda, que se protegem muito bem de qualquer adversidade, ao lado de populações extremamente vulneráveis, que dependem do Estado para garantir até a alimentação. O que eu quero dizer é que os mais pobres e os mais ricos não sofrem do mesmo modo e na mesma medida os efeitos de uma greve de serviços públicos. Além disso, há diferenças no tempo de resolução dos conflitos geradores das greves, que varia de acordo com as classes e frações de classe afetadas pelos movimentos. Greves que afetam a burguesia e a classe media são sempre muito mais curtas do que as greves que afetam o proletariado e o sub-proletariado, chamado "povão".

Sobre as greves de bancários e rodoviários, mencionadas por você. O sistema bancário não para nunca completamente. Primeiro, por restrições legais. Segundo, pelo alto grau de automação. E em terceiro lugar, pela diversidade de canais alternativos de atendimento, que hoje estão em casas lotéricas e até em redes de supermercados. Portanto, com o advento do auto-atendimento por telefone, internet e caixa-eletrônico, e da integração dos sistemas online dos bancos com as casas lotéricas e supermercados, os transtornos de uma greve bancária hoje são muito menores do eram há 20 anos atrás. O sistema não para mesmo.

Sobre os ônibus. Realmente, eu não saberia dizer se houve realmente algum dia no Rio alguma greve de rodoviários. Tenho a mesma quase certeza que você de que o que sempre houve foi o lock-out, em que o patrão suspende o serviço prá simular uma greve salarial e pressionar a prefeitura a autorizar uma elevação de tarifa. O transporte rodoviário é o principal meio de locomoção do trabalhador brasileiro, nos centros urbanos. Se ele para, isso tem repercussões em toda a economia. Não só os trabalhadores perdem o dia de trabalho. A burguesia também. E por atingir à burguesia, nunca uma greve ou lock-out se estende por mais de dois ou três dias, assim mesmo se for muito forte. São, portanto, paralisações de curta duração e prejuízos limitados pelo próprio empenho da burguesia em abreviá-las.

Nem os rodoviários, nem os bancários causam tanto sofrimento e prejuízo com suas greves à classe trabalhadora, especialmente às populações mais carentes, do que os servidores públicos da educação e da saúde, cujas paralisações são invariavelmente prolongadas, como estas que estamos vendo hoje aqui no Rio. A burguesia e a classe media se acomodam na educação e na medicina privada. Os servidores se acomodam na estabilidade do emprego. Só ao povão incomoda a paralisação do Estado, em áreas que só ele busca por necessidade. E como o povão, apesar de maioria, é desorganizado e, portanto, fraco politicamente, acaba carregando o fardo de sua dor sozinho, sem meios sequer de fazer chegar suas queixas ao Estado, aos servidores, ao conjunto da sociedade.

Portanto, Eugênia, concluindo neste ponto, penso que a greve não deve ser admitida em serviços essenciais que não possam ser providos por outras vias e estar acessíveis ao conjunto da população. Já há na Lei 7.783, de 28 de junho de 89, uma definição do que é "serviço essencial" e "necessidade inadiável", que é a seguinte:

Art. 10 - São considerados serviços ou atividades essenciais:
        I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis;
        II - assistência médica e hospitalar;
        III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos;
        IV - funerários;
        V - transporte coletivo;
        VI - captação e tratamento de esgoto e lixo;
        VII - telecomunicações;
        VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e materiais nucleares;
        IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais;
        X - controle de tráfego aéreo;
        XI compensação bancária.


        Art. 11. Nos serviços ou atividades essenciais, os sindicatos, os empregadores e os trabalhadores ficam obrigados, de comum acordo, a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
        Parágrafo único. São necessidades inadiáveis, da comunidade aquelas que, não atendidas, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população.


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7783.htm




"Nós petistas penso que devemos defender o direito de grave do setor público e uma mobilização que não se coloque contra a população que depende dos serviços. A CUT está aí para isso.. Exemplo disso é a greve dos metroviários que liberam as roletas." (Eugênia)

Liberar a roleta não é greve, Eugênia. Mas é, sim, uma forma inteligente de luta, porque serve prá dar prejuízo ao patrão, fazer a propaganda da causa e ganhar a simpatia e a solidariedade dos outros trabalhadores. Defender o direito irrestrito de greve dos servidores, é defender a possibilidade de suspensão do direito do cidadão aos serviços públicos. A greve é uma forma de mobilização que sempre se colocará contra a população que depende da ação estatal para ter seus direitos assegurados.

Nós, petistas, não podemos nos curvar ao que a razão mostra não ser correto, não podemos perpetuar a vigência de conceitos e fórmulas que inviabilizam a realização do projeto do partido. A luta pelo socialismo democrático, e mesmo pelas reformas estruturais ainda nos marcos do capitalismo, depende da unidade da classe para atingir seus objetivos. Greve que divide  a classe não serve às reformas, muito menos ao socialismo.

Sei que se convencionou que a posição em relação à greve define se o sujeito é de esquerda ou direita, mas isto, estou certo, é uma bobagem. Quando a greve fere o ideal da igualdade, não é greve de esquerda, é greve de direita. Eu, como militante de esquerda, sinto-me muito à vontade, graças às fortes razões que tenho exposto, para condenar a greve nos serviços públicos. São greves dirigidas e realizadas por trabalhadores que não sabem o que é consciência de classe, e que por isso dividem a classe, comprometendo o avanço da luta pelas reformas estruturais e pelo socialismo. É preciso ter a coragem de abrir e encarar essa discussão dentro do PT, para tentar fazer ver a estes companheiros - que, ao que tudo indica, são maioria, pelo menos na vanguarda - o equívoco em que estão de boa fé incorrendo, sem saber o prejuízo que ele pode representar para ideal que abraçaram.



"Precisamos avançar muito. É certo. Em direção a um setor público de qualidade o que inclui bons salários e bons planos de carreira. Mas sem egoismos pequeno burgueses, por favor. Afinal os filhos dos professres das escolas públicas também estudam em escoals públicas." (Eugênia)

Os filhos dos professores das escolas públicas, durante as greves, com certeza, estudam em casa. Com os pais, que são professores. E os filhos dos porteiros, da empregadas domésticas, dos garçons, das manicures, das caixas de supermercado, dos ajudantes de pedreiro, das operadoras de telemarketing, dos subempregados e desempregados, que, muitas vezes, mal sabem escrever o próprio nome? Como fica a educação dos filhos desses trabalhadores? Aonde o egoísmo pequeno-burguês, Eugênia? Nos que defendem os direitos do proletariado e do sub-proletariado, ou nos que os desprezam, privilegiando os setores da classe que já têm uma vida melhor do que a deles? Pense bem.



Um abraço, companheira.




Mensagem a Ricardo Quiroga


Olá, Ricardo Quiroga. Quero comentar algumas de suas falas.

"é inquestionável o direito de greve de cada categoria, porque cada um sabe onde o calo aperta." (Ricardo Quiroga)

E você sabe onde aperta o calo do usuário dos serviços públicos, durante uma greve de servidores? Ou tem plano de saúde e os filhos matriculados em escolas particulares?



"a única greve que prejudica unicamente os patrões (privados) e a elite é a de garçons de restaurantes chiques e a de seus trabalhadores domésticos." (Ricardo Quiroga)

Como você mesmo disse, Ricardo, não se pode igualar categorias e lutas. Toda greve tem um custo social que varia de categoria para categoria. Eu não tenho nenhuma dúvida, de que as greves na saúde e na educação pública, estão entre as mais socialmente onerosas que existem, por afetarem exatamente a população mais pobre, que depende da ação estatal para ter seus direitos mais elementares assegurados.

Se toda greve tem um custo social, você não acha que deveríamos usar essa forma de luta de maneira mais criteriosa, evitando em alguns casos o seu emprego, atentos à previsão da relação custo/benefício?


Um abraço, companheiro.




segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Greve no setor público é a vitória do corporativismo sobre a consciência de classe.

Por Silvio Melgarejo - Nadando contra a corrente, dentro da esquerda, defendo o seguinte ponto de vista:

Greve no setor público é trabalhador pisando em trabalhador. É a vitória do corporativismo sobre a consciência de classe.

“Na briga entre o mar e o rochedo, quem sofre é o marisco”. O ditado é velho, desconheço sua origem, mas ilustra bem a situação vivida hoje pelos alunos das redes municipal e estadual de ensino do Rio de Janeiro. Coitados. Deram o azar de nascer mariscos. Outro ditado, também muito conhecido vem bem a calhar: “não há nada tão ruim que não possa piorar”. Esse, então, é perfeito para descrever os serviços públicos em tempos de greve. Se os estudantes são os mariscos, Estado e professores são rochedo e mar, empenhados na própria luta e indiferentes à sua sorte.

Quando é que os servidores públicos vão entender que hospital e escola pública não são fábricas capitalistas? Quando é que vão entender que a greve numa escola ou hospital tem implicações muito diferentes das existentes nas greves fabris? Quando é que vão tomar consciência de que, enquanto o poder de barganha da greve operária está no prejuízo causado apenas ao burguês, o poder de barganha das greves que fazem alimenta-se unicamente do sofrimento e do prejuízo causado aos usuários dos serviços públicos, que são exatamente os trabalhadores mais pobres da sociedade? Quando é que os servidores públicos vão entender que isso é uma covardia e uma injustiça enorme que, com razão, não lhes perdoam os seus irmãos de classe?

Em 2007 conversei sobre isso com alguns professores grevistas de São Paulo através do Orkut. Na época, discutia-se uma proposta de regulamentação do direito de greve dos servidores, enquanto multiplicavam-se, no Rio, as vítimas de balas perdidas na guerra da polícia contra o tráfico. Invariavelmente, trabalhadores pobres é que morriam. Foi inevitável pensar, então, que na guerra salarial dos servidores contra os governos, a vítima é também aquele mesmo trabalhador pobre, que não tem plano de saúde, nem condições de pagar uma escola particular para os filhos. Os servidores lutam “bravamente”. Mas quem entra, à revelia, com o sacrifício é o usuário dos serviços públicos. Disse àqueles companheiros que era solidário à sua causa, mas que desaprovava o seu método de luta, explicando porque e apresentando alternativas. Num momento em que vejo tanta gente solidária com a greve dos professores cariocas, que já dura mais de 40 dias na rede municipal, e mais de 2 meses na rede estadual de ensino, ponho-me no lugar do pai de um aluno sem aula e imagino que ele deva pensar: "Odeio Cabral e Paes. Mas odeio igualmente os professores grevistas".

A greve no setor público gera um conflito de interesses entre usuários e servidores, que divide inevitavelmente a classe trabalhadora e impede que ela avance objetivamente para a solução dos problemas existentes em áreas essenciais como a saúde e a educação. Isso não precisaria ocorrer, porque a greve não é a única forma de luta capaz de pressionar os governos ao atendimento das demandas dos servidores. O uso recorrente da greve nos serviços públicos e a naturalização de suas infelizes consequências, revela o predomínio absoluto do corporativismo sobre a consciência de classe no sindicalismo brasileiro. Esse é um problema que deveria preocupar muito a esquerda brasileira, mas aparentemente não preocupa. E por uma razão muito simples. Os trabalhadores organizados em sindicatos estão muito mais presentes nas máquinas partidárias e nos parlamentos do que os não sindicalizados. De tal modo que os partidos de esquerda acabam sendo contaminados pelo corporativismo dos sindicatos em que estão presentes.

O sindicalismo, de fato, une os membros de uma categoria, mas tende a dividir a classe. E classe dividida, é classe politicamente fraca. Todos perdem com isso. A única maneira de combater o corporativismo e reforçar a consciência de classe nos partidos de esquerda e na sociedade é investir no fortalecimento das associações de moradores e na criação de associações de usuários de serviços públicos. Só nesse tipo de entidade, trabalhadores de diferentes categorias profissionais teriam a oportunidade de, juntos e misturados, atuarem efetivamente como classe social. O dia em que a questão salarial dos servidores públicos for discutida pelo conjunto da classe trabalhadora, como parte integrante de sua luta por mais e melhores serviços públicos para todos, a greve nos serviços públicos vai ser abolida definitivamente, por decisão livre, democrática e soberana dos próprios trabalhadores.

A luta unificada da classe em torno de uma pauta comum sobre os serviços públicos, que abrangesse as demandas dos servidores, seria um caminho alternativo à destrutiva e ineficiente fórmula tradicionalmente adotada pelos sindicatos de servidores em campanhas salariais. Mas, quem afinal admite sequer pensar em alternativas às greves, quando acha perfeitamente legítimo atropelar o direito dos outros para defender o próprio direito? A ética capitalista da disputa e da concorrência, do “cada um por si”, do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, do “morreu? antes ele do que eu”, move os trabalhadores tanto quanto aos seus patrões, nessa selva maluca que é a nossa sociedade. Os servidores clamam por justiça pisando no pescoço dos usuários dos serviços públicos. Sindicalistas de discurso socialista pedem a solidariedade dos que estão com o pescoço sob suas botas. Exalta-se o heroísmo e a combatividade dos grevistas, como se eles não impusessem ao conjunto da classe o ônus total da luta de sua categoria. A causa dos professores do Rio é justa. Mas eles estão realmente sendo egoístas e tremendamente injustos com os seus alunos, filhos dos trabalhadores mais pobres da nossa sociedade. Não seria necessário impor-lhes tanto sacrifício, porque há, sim, formas mais eficientes e menos socialmente danosas de pressionar governos do que a greve.

Convido os servidores, especialmente professores, que estão presentemente em greve, a refletirem um pouco sobre as ponderações que respeitosamente faço. Contem comigo para lutar ao lado de vocês, mas não para apoiar as suas greves, porque elas só prejudicam outros trabalhadores mais pobres do que vocês. Os filhos de Cabral e Paes não estudam em escola pública.

Texto publicado em minha página no Facebook


DEBATE NO FACEBOOK

Glória Melgarejo disse - Faltou apontar quais são "as formas mais eficientes e menos socialmente danosas de pressionar governos do que a greve". Muito fácil dizer que há alternativas, mas não indicar quais. Negociar com os atuais governos estadual e municipal, por exemplo, não é possível. Com eles, não há diálogo. Eles nunca aceitam sentar à mesa para debater os problemas. Como pressionar então?

Amália Araújo disse - Além de não mencionar as alternativas como Gloria Melgarejo citou acima... gostaria de lembrar que prejudicados esses alunos já estão e faz muito tempo, numa escola que aprova automaticamente; numa máquina de fazer avaliações que só geram mais verbas federais para estados e municípios e não repassam para escolas e professores; escolas que na sua maioria não possuem condições mínimas para funcionar; falta de autonomia dos educadores para lecionar e educadores massacrados e insatisfeitos. Se a questão fosse só salarial, certamente esta greve já teria acabado. No Rio de Janeiro, além de todos estes pontos nos deparamos com um PCCR que aniquila a carreira dos funcionários, onde um professor recém concursado recebe mais e pode mudar mais de nível que um profissional de mais de 20 anos, onde agora, com o PEF, que na verdade é um professor polivalente, podemos ter professores de educação física alfabetizando, professor de português dando aula de matemática e assim por diante. Certamente, se não continuarmos na greve, esse aluno só perderá mais ainda. Nessa corrida pela privatização do ensino público, só quem perde são eles. E por último, o ponto mais importante, intransigente não é o grupo de educadores e sim o governo que a força enfia suas vontades ditadoras goela abaixo de toda a sociedade.

MEU COMENTÁRIO - É mais fácil ainda dizer que não há alternativa senão a greve e jogar todo o ônus da paralisação sobre os ombros das crianças pobres. Fazer greve com estabilidade no emprego e sem desconto dos dias parados é mole. Difícil é fazer greve em empresa privada, onde não tem nada disso. 

O que eu disse no meu texto:
“A luta unificada da classe em torno de uma pauta comum sobre os serviços públicos, que abrangesse as demandas dos servidores, seria um caminho alternativo”.
Qualquer forma de luta decidida e implementada em comum acordo por servidores e usuários dos serviços públicos, é milhões de vezes mais eficiente do que uma greve. Só não entende isso quem ainda não percebeu que escola e hospital não são fábricas. 

Vamos pensar juntos?

Por que o burguês cede à reivindicação do operário ante uma greve? Porque a greve não lhe convém. E por que não lhe convém? Porque lhe dá prejuízo. Prejuízo de que natureza? Prejuízo financeiro. 

Agora por que o governo cede à reivindicação do servidor ante uma greve? Porque também ao governo a greve não convém. E por que não convém? Porque lhe dá prejuízo. Prejuízo de que natureza? Prejuízo político.

Existe, portanto, uma diferença fundamental entre a greve na fábrica capitalista e a greve nos serviços públicos. A greve na fábrica tem como alvo a fonte do capital financeiro do burguês que é o lucro advindo da venda da produção. Se não há produção, não há venda, e se não há venda não há lucro. Já a greve nos serviços públicos tem como alvo a fonte do capital político do governante, que é a aprovação social conquistada pela quantidade e pela qualidade da oferta de serviços públicos. Se não há serviços públicos, não há aprovação do cidadão-eleitor ao governante.

A greve operária é uma ação que se dá no contexto de um conflito entre duas partes - trabalhador e patrão - que não objetiva atingir uma terceira, que seria a clientela da empresa.

Já a greve no serviço público é também uma ação desenvolvida no contexto de um conflito entre duas partes - servidor e governo. Mas nesse caso uma terceira parte - o usuário - é trazida à força, como refém, para o centro da disputa. Aqui, o objetivo da ação grevista é impor deliberadamente sofrimento e prejuízo ao usuário, na expectativa de que o usuário compreenda o servidor, que lhe afunda a faca no pescoço, e responsabilize o governo pelo seu drama. 

Nunca vi usuário de serviço público parado com Síndrome de Estocolmo. Muito pelo contrário. Todo cidadão odeia quem sequestra seus direitos. Por isso, quando há uma greve nos serviços públicos, a responsabilidade pelos transtornos é dividida pelo usuário, entre governo e servidores, com uma dose maior de condenação aos servidores pela traição de classe e pelo fato de provocarem deliberadamente o agravamento de uma situação que já lhes é permanentemente desfavorável. Cidadão que depende mesmo dos serviços públicos não apoia greve de servidores. 

Se os professores, por exemplo, usassem a força de sua organização e o poder de seus aparatos sindicais para promover atividades diárias de esclarecimento e protesto, dentro e fora das escolas, envolvendo alunos, pais, comunidades, entidades, imprensa e partidos políticos, para expressar o propósito de lutar por melhores salários sem recorrer à greve, para respeitar e preservar o direito sagrado das crianças e adolescentes ao ensino; se fizessem isso de maneira sincera e apaixonada, pondo o amor pela educação acima da necessidade de um melhor salário, os professores ganhariam com certeza a inteira simpatia, o respeito e o apoio de todos os demais trabalhadores, enquanto os governos sofreriam sozinhos o desgaste de suas imagens, caso adotassem atitude intransigente. Uma mobilização como esta, além disso conduzida dessa forma pelos professores, envolvendo tanta gente na sociedade, seria uma inesquecível lição de amor e cidadania para todos os que tivessem o privilégio de testemunhar ou participar desses eventos. Porque educar não é só ensinar letras, números, fórmulas e conceitos. Educar é, sobretudo, formar cidadãos solidários.

Não são muitas as formas de luta social convencionais. Além da greve, que afeta a produção, e do boicote, que afeta o comércio, há o comício, a passeata e a vigília (acampamento ou ocupação), que servem ao mesmo tempo para mostrar a governos e parlamentos o volume e a intensidade da adesão social a uma causa, e dar publicidade aos seus princípios e objetivos para ampliar ainda mais o seu número de adeptos. No caso dos servidores, cujo objetivo deve ser o desgaste da imagem do governante e a conquista da simpatia da sociedade, as formas mais efetivas de luta são as de natureza propagandística e de demonstração pública de adesão social.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre a repressão ao protesto do dia 20 de junho.

(Resposta ao comentário de minha irmã, Glória Melgarejo, a respeito de um vídeo postado no Facebook. Reproduzo o comentário e o vídeo logo abaixo do meu texto)

1) Você pode até encontrar quem não seja de classe media, mas a classe media é, sim, majoritária.

2) A Baixada também tem uma pequena-burguesia, uma classe media, quem disse que não?

3) Não disse que aprovo o modo como agiu a polícia. Disse que a polícia agiu como sabe agir, como sempre agiu. É passível de críticas. Mas quem há de dizer que, à ação errada, preferiria a omissão da polícia?

4) Num Estado burguês, precariamente adaptado à democracia, como é o nosso, a polícia é guardiã do patrimônio, mais que dos direitos humanos. Prá mim, não houve desrespeito aos direitos humanos, neste caso. Mas ela de fato foi acionada com o objetivo de proteger o patrimônio público e privado que estava sendo alvo de vandalismo.

5) Todo movimento social pacífico está sujeito a infiltração de provocadores e de grupos predispostos à violência e à desordem. Se o movimento não for capaz de exercer sua própria ação policial interna, inibindo ou rechaçando os invasores, será, fatalmente, alvo da ação policial do Estado, que reprimirá violentamente a todos os manifestantes indistintamente. O movimento, portanto, que chama a massa prá rua e não trata de sua própria segurança interna, paga sempre um preço alto por esta sua negligência ou incompetência. Pacíficos, na luta social, também têm que saber usar a força prá se defender.

6) As recentes manifestações estiveram apinhadas de extremistas de esquerda e direita, pitboys de classe media e setores populares marginais. Uns acham que destruir patrimônio alheio é ato revolucionário. Outros têm a violência como filosofia de vida. Há os que extravasam a revolta que têm contra a vida, os que gostam de sentir a adrenalina. E há os oportunistas, que vão preparados pro saque. A Globo diz que é uma minoria. Mas a verdade é que não são poucos. A própria Globo tem mostrado imagens de bandos de centenas em movimento, enfrentando as polícias e destruindo as cidades. Poucos não teriam o poder de fazer tanto estrago e dar tanto trabalho a tantos policiais.

7) Pois aqui no Rio estes extremistas e bandidos misturaram-se à multidão, fazendo dela uma trincheira, de onde desferiam ataques, e um esconderijo, onde se refugiavam da repressão. Se a massa os expelisse, seria, provavelmente, poupada do ataque policial. Como não o fez, sofreu a repressão. De fato, não havia como conter ou prender os manifestantes violentos, sem atingir os pacíficos, já que aqueles abrigavam-se entre estes.

8 ) Eu não estava lá, é verdade. Mas vi uma porção de vídeos que estão rolando na internet. Uma multidão caminhou pela Presidente Vargas até o prédio da prefeitura e lá fazia um ato. O vídeo que vi, pega os manifestantes de costas e a uma certa distância. De modo que não dá prá ver o que houve lá na frente. A agressividade de setores do movimento já tinha se mostrado na Assembléia Legislativa, portanto, não duvido que tenha havido provocações e agressões aos policiais, e até ameaças de invasão do prédio. De repente, começa uma chuva de bombas e a correria. A partir de então começa um confronto entre policiais e manifestantes. Chega a cavalaria e forma uma linha, junto com o choque, prá empurrar a multidão na direção da Candelária. Acho que foi essa sucessão dos fatos, pelo que vi nos vídeos.

9) A autoridade policial se baseia na lei e na prerrogativa do uso da violência para fazer cumprir a lei. A lei estava sendo descumprida não por meia dúzia de infiltrados, mas por uma multidão abrigada dentro de uma multidão maior. Com todas as suas imensas e conhecidas limitações, a polícia carioca agiu com a máxima firmeza, para impor a própria autoridade - que vinha sendo afrontada - e restabelecer a ordem, como manda a lei. Cometeram excessos e até, possivelmente, ilegalidades, pelas quais policiais e o próprio Estado terão que responder, criminal e politicamente. Mas cumpriram a missão de botar um ponto final na bagunça em que se transformou a manifestação. Não era uma situação fácil prá polícia.

10) A repressão foi até a Praça Paris. Vi um vídeo com cenas de lá. Aparentemente a Secretaria de Segurança estabeleceu um perímetro em torno do Centro, e mandou a tropa limpar a área. Teria sido uma espécie de toque de recolher. Morador do Centro, posto prá dentro de casa; visitantes, expulsos do bairro. O Centro foi isolado.

11) A prefeitura informou que 62 feridos deram entrada no Souza Aguiar, nenhum em estado grave. Só três precisaram ficar internados. Destes 62, 8 eram guardas municipais. Isso reforça minha avaliação de que a ação policial foi mais barulhenta do que violenta. 62 feridos, numa manifestação de centenas de milhares, é muito pouco, não dá prá se considerar um massacre, uma chacina. Se você considerar que o número de policiais era infinitamente menor do que o de manifestantes, e que o número de manifestantes violentos poderia ser equivalente ao número de policiais que eles hostilizavam, acho que 62 feridos, sem gravidade, é um balanço até positivo prá polícia. Não morrer ninguém, num confronto violento como aquele, envolvendo tanta gente, é, prá mim, um milagre.

12) Tenho, por hábito, me botar no lugar dos outros, prá julgar sua conduta. Eu sei o que sente uma vítima da repressão policial a um movimento social, porque tenho a experiência de atuar no movimento social. Sentem mais os mais sensíveis, e os mais sensíveis são os menos habituados a conviver com situações de elevado stress, como são estas que se vê nos vídeos. Lamento pelas vítimas, mas tenho certeza de que a maioria saiu fisicamente ilesa. Foi mais um susto, o que sofreram. Aqueles policiais não saíram, certamente, às ruas com ordens prá matar ou machucar ninguém. Foram para espantar pessoas e dispersar uma multidão sem organização e sem comando, que estava servindo de esconderijo e de trincheira prá centenas bandidos.

13) Me coloco no lugar dos policiais. Sei que, também entre eles, os bandidos são minoria. Tento me imaginar no lugar de um policial do bem, um operário da segurança pública, que recebe a missão de ir prá rua controlar uma multidão em fúria. Não é uma tarefa fácil. Polícia também deve ter medo. E controlar o medo é muito difícil quando se está sob ameaça. O descontrole de um policial armado, despreparado e apavorado, já deu ensejo a um sem número de tragédias. Aqui, os nossos policiais são mesmo despreparados e não são treinados numa cultura de respeito aos direitos humanos. E, ainda assim, mesmo durante os confrontos mais violentos, eu não vi, francamente, nenhum descontrole. Usaram, a meu ver, a força, com método e consciência. Dada a dimensão monumental dos eventos e a quantidade de participantes agressivos atuando dentro deles, acho que nem a melhor polícia do mundo teria tido uma atuação muito melhor do que a nossa.

14) A lição que deve ficar para os debutantes da cidadania é a seguinte. Movimento social não é pic-nic, não é brincadeira; é luta. Não basta encher a rua de gente, tem que organizar e dirigir a massa; senão dá a merda que deu. Organizar muita gente é difícil e dá trabalho prá cacete. Que o digam os diretores de harmonia das escolas de samba. O Facebook é bom prá convocar, mas não ajuda a organizar nada. Sem organização, a multidão não tem controle; e multidão descontrolada é risco certo de tragédia. Felizmente aqui no Rio não houve nenhuma tragédia, sobrevivemos todos ao terremoto. Aí eu te pergunto. Graças a Deus, ao acaso ou à polícia?

***

O comentário de minha irmã, Glória, e o vídeo que ela compartilhou sobre o protesto do dia 20.
"Este vídeo é bem esclarecedor sobre o que ocorreu em 20 de junho de 2013 no Rio de Janeiro. Tem cerca de 21 minutos de duração, mas vale a pena “perder” um tempinho para assisti-lo. Perguntas ficam no ar. São muitas, mas exponho aqui algumas que me vêm de pronto. São elas:

1) Um (eu disse um!) indivíduo começa a incitar a PM. Os manifestantes gritam, apoiando seu afastamento. Por que a polícia simplesmente não prendeu o sujeito e, em vez disso, optou por atacar todos os presentes indiscriminadamente?

2) Por que os ataques policiais continuaram, quando as pessoas sentaram-se no chão e pediram que a violência parasse?

3) Por que apagar as luzes da Presidente Vargas? Isso é proteger a população? Quem quer agir corretamente não prefere fazê-lo às claras? Bom, segundo um dos manifestantes que aparecem no vídeo, a resposta é simples: “Eles apagaram as luzes porque querem ocultar tudo o que eles fazem.”

4) Cercar pessoas que só querem voltar para suas casas, impendido-as de exercer o seu tão lembrado ultimamente direito de ir e ir, é protegê-las?

5) Policiais sem identificação. Por quê? Isso está certo?"