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quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A quem serve a criminalização das drogas

Por que os Estados Unidos desistiram da Lei Seca? Porque não deu certo. Não resolveu o problema que tinha como alvo e ainda criou outros problemas, ainda mais graves. Foi absolutamente ineficaz e teve gravíssimos efeitos colaterais, como o aumento da corrupção do sistema de justiça e o aumento da violência nas cidades. Se a criminalização da produção, comércio e porte do álcool deu resultados assim, tão ruins que os estadunidenses hoje sequer cogitam de retomá-la, por que se supõe que a criminalização da produção, comércio e porte de outras drogas, que há várias décadas tem tido os mesmos efeitos negativos nos países onde é vigente, ainda pode ter alguma chance de êxito? A insistência nessa política de ineficácia e nocividade mais do que evidentes sugere que alguém deve estar ganhando enquanto as sociedades perdem. Quem poderia ser? Meus palpites: indústria de armas e agentes públicos corruptos, da política, do judiciário e das polícias.

Silvio Melgarejo

18/11/2020

sábado, 14 de novembro de 2020

Política que derrubou o consumo de tabaco derrubaria o consumo de outras drogas

Texto publicado em algum lugar no Orkut em 16 de maio de 2011

Antes de mais nada, quero deixar minha posição sobre esse assunto bastante clara. Eu sou a favor da legalização da maconha, da descriminalização do consumo de todas as demais drogas, da proibição de toda publicidade pró-consumo de drogas e do investimento pesado e continuado – tanto por parte do Estado como por parte da iniciativa privada – num programa de esclarecimento da população sobre os efeitos nocivos das drogas para a saúde física e mental dos usuários.

Existem três ordens de argumentos contrários ao uso de drogas mediante os quais pretende-se desestimular o seu consumo na sociedade. Há os argumentos de ordem legal, os de ordem moral e os de ordem cientifica.

Os argumentos de ordem legal, tratam usuários como criminosos e defendem que sejam penalizados. Os de ordem moral, tratam usuários como gente de mau caráter, merecedora de censura social e discriminação. Já os argumentos de ordem cientifica tratam os usuários de drogas como um grupo permanentemente ameaçado pelo risco de desenvolver enfermidades físicas e transtornos psiquiátricos.

De modo que os argumentos de ordem legal tentam impor-se pela força, os de ordem moral, pelo preconceito e os de ordem cientifica tentam impor-se pela razão.

Os argumentos de ordem legal tendem a falhar porque, não sendo o Estado onipresente, é sempre possível driblar a proibição. 

Os argumentos de ordem moral também tendem a falhar porque não convencem, a própria tradição bíblica diz que “o mal é o que sai da boca do homem”, não o que entra, portanto, ser ou não ser usuário de drogas não torna ninguém nem mais nem menos virtuoso. É bom lembrar que Jesus Cristo serviu vinho e não suco de uva em pelo menos duas situações relatadas nos evangelhos: as Bodas de Caná e a Última Ceia. 

Quanto ao argumento de que o consumo alimenta o tráfico, é um sofisma. O tráfico só existe porque o comércio de drogas é ilegal. Portanto a proibição é que cria e alimenta o tráfico. Por isso é difícil convencer o usuário de drogas de que ele é responsável pelo aumento da criminalidade decorrente das ações violentas das quadrilhas. Responsáveis são, na verdade, a hipocrisia e a ignorância dos que mantém as drogas mais demandadas na ilegalidade.

Já os argumentos de ordem cientifica são os tendem a ter maior efeito dissuasório. Porque a informação objetiva apela diretamente ao interesse do indivíduo em zelar por si mesmo, por sua saúde e pelo seu bem estar. Além disso, tudo que é obrigatório ou proibido gera resistência. 

Os argumentos de ordem legal e os de ordem moral tendem a falhar porque geram resistência ao desrespeitarem o direito do indivíduo de deliberar sem constrangimentos sobre o que fazer e o que não fazer com o seu próprio corpo.

Já os argumentos de ordem cientifica tendem a ter um resultado muito mais positivo porque respeitam o direito do indivíduo ao governo do seu próprio corpo, ao mesmo tempo que mostram-lhe os riscos a que estará sujeito, caso decida fazer uso de alguma droga.

O uso de drogas para fins não terapêuticos é tão antigo que nem se sabe exatamente quando e como teve origem; e é tão generalizado nas sociedades humanas que não se pode dizer sem falsear a verdade que seja modismo. É um costume que faz parte de todas as culturas e encontra-se em todas as épocas. Pretender acabar com algo tão fortemente arraigado e disseminado por via da proibição pura e simples, numa época em que se tem tanto apreço pela liberdade e tanto horror a qualquer forma de opressão, é o mesmo que lançar combustível à chama do desejo de transgredir.

A ignorância é a melhor amiga dos maus hábitos. A educação é a melhor aliada da saúde.

A melhor política de drogas é aquela que o Brasil vem desenvolvendo em relação ao cigarro. Desde 27 de dezembro de 2000, a propaganda de cigarros foi banida da televisão e do rádio pela lei nº 10.167. De lá para cá foi intensa a campanha de esclarecimento da população, sobre os males provocados pelo tabagismo, pelas grandes redes de TV e rádio. 

Não havia, até bem pouco tempo, consciência sobre os riscos de se fumar de modo indireto, da convivência do não fumante com o fumante, de respirar o ar carregado da fumaça produzida pelos cigarros de outrem. A divulgação dessa informação facilitou muito a adoção de medidas restritivas ao ato de fumar, visando à garantia legal do direito de não fumar, de não ser forçado a compartilhar do vício alheio. Neste caso, o consenso que se criou na sociedade foi o que possibilitou a ação dos legisladores na produção e aprovação de leis limitadoras dos espaços onde fumar é permitido. 

Se propaganda não desse resultado de venda, não se gastaria tanto em publicidade. Se desde o ano 2000 o consumo de cigarros vem caindo tanto como se observa, é porque desde o ano 2000 a propaganda de cigarros foi simplesmente proibida, de lá para cá só houve propaganda antitabagismo. Quem quer fumar, fuma, mas sabe o mal que faz a si mesmo. Se vai adoecer, se vai morrer de câncer, é algo que só ao indivíduo compete decidir se vale ou não correr o risco. Foi essa a linha adotada nas campanhas. E deu certo. O consumo de tabaco despencou sem que para isso se violasse o livre arbítrio do cidadão e sem que nenhum tiro tenha sido disparado. Ao invés de tratar o problema como questão de segurança pública, como fazem como a maconha e cocaína, trata-se como problema de saúde pública. No lugar de leis proibitivas e do moralismo hipócrita, dá-se ao povo informação objetiva. No lugar dos tiros, algemas e presídios, dá-se educação nas escolas e através das grandes mídias. É muito mais eficaz. Porque o cidadão que preza a sua liberdade, admite ser convencido, nunca tutelado.

Silvio Melgarejo

16/05/2011

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Política de drogas e a experiência da Lei Seca americana

Em alguma comunidade do Orkut, creio que numa chamada Direitos Humanos, em 15 de dezembro de 2007, eu publiquei o seguinte comentário num tópico em que se debatia a questão das drogas

"Como pode alguém pretender debater seriamente a questão da legalização ou proibição das drogas sem considerar a experiência americana da Lei Seca? Desde o início do tópico, li post por post e não vi uma referência sequer à 18ª Emenda, que durante 13 anos, desde 1920, deu poder e enriqueceu gangsters como Al Capone, transformou cidades como Chicago em verdadeiros campos de batalha entre quadrilhas de traficantes, até ser revogada em 1933 pelo então presidente, Roosevelt, por evidentemente trazer muito mais danos do que benefícios à sociedade americana. Precisamos falar sobre a Lei Seca dos Estados Unidos. Tudo que aconteceu lá enquanto ela esteve vigente acontece hoje por aqui, provocado pela criminalização da maconha e cocaína."

Silvio Melgarejo

13/11/2020

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

"Guerra às drogas" inviabiliza a segurança pública.

O grande nó da segurança pública no Brasil chama-se "política de drogas". Não há dinheiro e não há gestor público no mundo que consiga dar paz a uma sociedade com este tratamento que damos à questão das drogas. Parece bastante evidente, e ainda assim muita gente ignora, que a criminalização da maconha, e também da cocaína, financia o poder corruptor e bélico dos bandidos, quando deixa a demanda, permanentemente forte, da sociedade por estas drogas sem outra alternativa de oferta que lhe atenda, a não ser o tráfico. O traficante de drogas, com todo o poder que exerce e com todo o poder que ostenta, é um produto da criminalização da maconha e da cocaína. Sem a criminalização, ele seria um delinquente comum, muito mais fácil de ser enfrentado, por ter menos meios.

Faça-se, além disso, um levantamento de quantas pessoas morreram pelo uso destas drogas proibidas e de quantas pessoas morreram pela violência dos confrontos entre traficantes e destes com os policiais no último ano ou nas últimas décadas e se verá que a preservação da vida humana é a última das preocupações dos defensores desta política.

A criminalização da maconha e da cocaína mata em massa. Fere e mutila em massa. Encarcera em massa. Aterroriza as comunidades pobres e consome boa parte dos recursos financeiros do Estado. E apesar disso tudo, nunca alcança o objetivo perseguido, que é a redução substancial do consumo destas drogas pela sociedade. Trata-se, portanto, de uma política cara, ineficaz e extremamente nociva.

É preciso afrontar os preconceitos e a hipocrisia dos que se empenham em alimentá-los, por interesses escusos, e defender uma mudança radical no tratamento que vem sendo dado à questão das drogas no país. É preciso conscientizar a sociedade, principalmente a classe trabalhadora mais pobre, que é maior vítima da "guerra às drogas", da necessidade de se tirar o controle da oferta da maconha e da cocaína das mãos da bandidagem, e de que isto só poderá ser feito através da legalização da produção, comércio e consumo destas duas drogas. Esta é a discussão que precisa ser feita hoje, neste momento em que a segurança pública é posta em evidência máxima, em razão da intervenção federal no Rio, que a tem por justificativa. Não se vence o narcotráfico com tiros de fuzil e com prisões. Se vence por asfixia financeira, trazendo para a economia formal o enorme mercado de consumo que o sustenta.

Mortais são os fuzis, não os baseados. Pela vida e pela paz, legalizem.

Silvio Melgarejo

22/02/2018