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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Vice do Lula deve ser Dilma


Para que serve um vice-presidente? Para prestigiar uma força política que se pretende ter como aliada numa eleição presidencial, sem dar-lhe poder para influenciar nos rumos do governo, já que se diz que o vice é figura decorativa, que não governa e portanto não serve pra nada? 

Não. A importância do cargo de vice-presidente não pode ser tão subestimada, isto é um erro que já nos custou muito caro, não esqueçamos a experiência com Temer. Para que serve um vice?

O vice-presidente serve para substituir o presidente em suas ausências provisórias ou permanente, mantendo o funcionamento do governo de acordo com o programa defendido na campanha da eleição em que saíram vitoriosos. 

Ou seja, o vice-presidente deve concordar com o programa de governo defendido pelo presidente e ambos devem assumir perante o povo o compromisso de cumprir esse programa, sem desviarem-se das suas diretrizes fundamentais.

O que acontece quando o vice-presidente não concorda com o programa defendido pelo presidente e sim com o programa de uma oposição golpista? Acontece o que aconteceu no governo Dilma. O próprio Michel Temer disse em entrevista que ela foi derrubada porque não aceitou adotar o programa Ponte Para o Futuro, que ele passou a implementar quando assumiu a presidência e que Bolsonaro tem dado continuidade. O programa Ponte Para o Futuro é um programa neoliberal.

Que características deve, então, ter o vice de Lula? Tem que ter afinidade política com o presidente, deve ser leal ao presidente e deve ter o compromisso de auxiliar o presidente na realização do seu programa de governo e dar sequência à realização desse mesmo programa, sem interrupções e sem desvios, sempre que o presidente tiver que se ausentar ou quando por qualquer motivo ele ficar impedido de exercer o cargo para o qual foi eleito.

Estou convicto de que Alckmin não tem essas características, mas que a ex-presidente Dilma as tem de sobra, por isso defendo o seu nome para o cargo de vice do futuro presidente Lula. 

A ideia de lançar Dilma para vice me veio quando percebi que há um movimento dentro do PT para responsabilizar apenas ela pelo golpe que sofreu, afastá-la de Lula e jogá-la no esquecimento, tudo para não constranger os golpistas com quem algumas lideranças do partido desejam fazer aliança. 

Para haver aliança com os golpistas é preciso fingir que não houve golpe e para tanto é preciso sumir com a Dilma do mapa, já que a simples presença dela lembra a história que querem apagar. 

A eleição de Lula com Dilma de vice seria a derrota total do golpe, uma vitória em dobro do povo, da justiça e da democracia. 

Simbolizaria ao mesmo tempo a retomada de um projeto virtuoso que foi abortado, o desagravo à presidente injustiçada, que foi vítima da ignomínia imposta pelos usurpadores do seu mandato e a independência do novo governo em relação à direita neoliberal, antidemocrática e pró-imperialista. 

Não subestimo os erros que ela cometeu enquanto presidente, que indiscutivelmente facilitaram o assalto golpista. Mas estou certo que ela tirou lições da experiência que teve e que deve estar ainda mais preparada para exercer a presidência. É a vice ideal para o Lula. Por isso, defendo desde já o seu nome.

Para olhar o futuro sem esquecer o passado, a vice-presidente de Lula deve ser Dilma Rousseff.

Toda conciliação de classes limita a transformação social em favor dos trabalhadores

Quanto menos se percebe e entende as diferenças fundamentais entre os políticos e partidos de esquerda e direita, mais tende-se a acreditar que elas podem ser facilmente superadas em favor do bem comum, como muitos desejam. Quando se ignora que o antagonismo entre esquerda e direita é a expressão política do antagonismo entre os interesses de uma classe social pobre, explorada e oprimida e os interesses da classe social rica que a explora e oprime, tende-se a acreditar ser possível a conciliação da esquerda com a direita em torno de um projeto comum que não traga ainda mais prejuízos para os perdedores de sempre e ainda mais vantagens para os que sempre ganharam muito.

Esquerda de verdade é aquela que defende intransigentemente os interesses do povo, sem admitir nenhuma perda a mais para o povo e exigindo sempre mais e o melhor para o povo. Esquerda de verdade é aquela movida pela convicção de que não é admissível, por não ser justo, impor aos pobres mais perdas e conceder aos ricos mais ganhos, é aquela movida pela convicção de que não é admissível, porque não é justo uma minoria gozar os mais infames privilégios enquanto a imensa maioria padece as piores agruras. A esquerda, que historicamente representa os pobres, não tem o direito de, em nome deles, renunciar a mais nada; a direita, que representa os ricos, é quem tem que ceder, e ceder muito, para que haja justiça. 

Os ricos e a direita reclamam do conflito intenso que tem tido com a esquerda na sociedade. Chamam esse conflito de polarização e dizem que a polarização faz mal ao país e por isso precisa cessar. Mas não é a polarização que faz mal ao país, o que faz mal ao país é a injustiça social, que é a causa e o alimento da polarização. Ponha-se fim à injustiça social e a polarização imediatamente termina. 

A polarização entre esquerda e direita é na verdade a expressão política da tensão que existe entre a necessidade urgente dos pobres e a ganância impiedosa dos ricos. A esquerda considera que a riqueza produzida pela sociedade deve beneficiar a todos e não apenas a uma minoria, que essa riqueza coletivamente produzida não pode ficar concentrada nas mãos de alguns poucos, que ela precisa ser distribuída por toda a sociedade, para que haja o bem comum. Acabar com a polarização política significaria ignorar o antagonismo realmente existente entre as classes na sociedade, conservando a situação que penaliza uma delas, a classe trabalhadora. 

Deixa de ser esquerda quem não polariza com a direita, quem busca a conciliação com a direita e evita o conflito, quem baixa a tensão com a direita e aceita os piores acordos para os trabalhadores. Porque o que define realmente a esquerda é exatamente a intransigência na defesa da justiça social em favor dos mais pobres. Não é de esquerda quem não tem essa atitude inflexível, quem tolera a injustiça social e não a combate com vigor e constância, quem faz pactos conservadores dos privilégios dos ricos e das carências dos pobres. 

A direita só faz acordo com a esquerda quando o acordo favorece aos ricos, que ela historicamente representa. De modo que toda aliança entre esquerda e direita implica obrigatoriamente num rebaixamento das metas do programa de governo da esquerda, com prejuízo para a luta por uma justa distribuição da riqueza e consequentemente para a expectativa de melhoria de vida dos pobres. 

É isso que precisa ser compreendido pela militância de esquerda no Brasil, para que ela não acredite mais nas promessas de quem prega a conciliação entre as classes, entre oprimidos e opressores, entre explorados e exploradores. Porque essa conciliação é, na verdade, conservadora da exploração e da opressão e, portanto, conservadora da injustiça social que a esquerda tem o dever de combater. 

Os pobres não podem e a esquerda, em nome deles, não deve renunciar a mais nada, a nenhum direito e a nenhuma vantagem que corrija a injustiça que eles sofrem desde que nascem; os ricos é que podem e a direita é que deve, em nome deles, ceder, para que haja justiça. 

Polarização significa confrontação. Pois sigamos, nós da esquerda, confrontando a direita, polarizando com ela, com cada vez mais audácia e vigor, porque só vencendo a direita é que será realmente possível transformar a sociedade injusta em que vivemos na sociedade justa que almejamos.