terça-feira, 11 de novembro de 2014

A presidência da república é ou não é do PT? Correlação de forças, governo de coalizão e partido militante.

Em 7/11/2014, o jornal O Globo publicou uma notícia que tinha o seguinte título:
‘Eu não represento o PT, represento a Presidência da República’, diz Dilma
No corpo da matéria, a declaração completa da presidenta:
"Eu não represento o PT. 

Eu represento a Presidência da República. 

A opinião do PT é a opinião de um partido. 

Não me influencia, eu represento o país. 

Sou presidente dos brasileiros. 

Acho que o PT, como qualquer partido, tem posições de parte e não do todo, é deles, é típico."
Em 9/11/2014, o companheiro Pedro Bernardes Neto, da tendência Esquerda Marxista, compartilhou o link desta notícia numa comunidade petista do Facebook, com o seguinte comentário:
"O que é isso companheira? Então porque é filiada ao PT? "
No dia seguinte, 10, publiquei o seguinte texto, em resposta a ele:
"Dilma é presidenta de um governo de coalizão. 

O governo não é exclusivamente do PT, é composto por outras forças, inclusive de direita. 

É evidente que dentro da coalizão há disputa entre os partidos e que Dilma participa dessa disputa como defensora maior das posições petistas. 

Mas não o faz de maneira ostensiva para evitar melindres e preservar a integridade dessa coalizão que já é por natureza frágil em razão de suas agudas contradições. 

O desafio da nossa presidenta e da direção do PT é conseguir construir e manter uma base de sustentação parlamentar que dê um mínimo de segurança ao nosso governo de que ele pelo menos não seja interrompido por um processo de impeachment. 
Já os compromissos assumidos por Dilma com os trabalhadores durante a campanha só poderão ser honrados se ela tiver uma ampla e consistente base de sustentação na própria sociedade.

E isso tem que ser construído pelo próprio Partido dos Trabalhadores.

A partir de agora, quem tem que falar pelo PT, para o governo e para o parlamento são as massas trabalhadoras organizadas e mobilizadas pelo próprio PT. 

A presidenta Dilma é filiada ao PT e já afirmou e provou seu compromisso com a classe trabalhadora. 

Mas não terá força política para honrar os compromissos assumidos durante a campanha se ficar refém da direita parlamentar, midiática e do Judiciário. 

Neste próximo mandato de Dilma, a classe trabalhadora tem que assumir o papel de protagonista real do processo político brasileiro, para dar suporte à Dilma e protegê-la do cerco conservador que já se ergue em torno dela. 

Contra o golpe de Estado, pela Reforma Política e pela Democratização da Mídia, a estratégia petista deve ser uma só: 

Construir o partido e mobilizar os trabalhadores."
Compartilhei, em seguida, no mesmo dia, dois links:
"Dilma Rousseff no Twitter: 'Eu tenho lado! O lado dos trabalhadores e das trabalhadoras deste país!'"

"Dilma diz que tem lado e que verdade vencerá 'pessimismo e desinfomação'"
Pedro Bernardes respondeu com o link abaixo, de um texto de sua tendência:
"Não existe 'onda conservadora' no Brasil, nem em SP"
Respondi-lhe com o seguinte texto:
"Soma aí, então: 

70 deputados federais do PT 

+ 9 do PCdoB 

+ 5 do PSOL, que é oposição. 

Tem mais algum partido de esquerda naquele Congresso? 

Acho que não, né. 

Então PT+PCdoB+PSOL totalizam 84 deputados. 

Sabe quantos tem o Congresso? 

513. 

Isto significa que a esquerda tem apenas 16,37% das cadeiras da Câmara. 

Com 83,63% das cadeiras, ou o PT faz acordo com algum setor da direita ou se isola e cava o impeachment da Dilma. 

Estranho é que os que exigem uma radicalização da presidenta sejam tão moderados, prá não dizer omissos, em relação ao tema da construção partidária e da mobilização dos trabalhadores. 

O que sugere que a radicalização, de fato, seja só 'gogó', retórica ultrarrevolucionária sem compromisso nenhum com luta nenhuma, nem com a realização de nada."
Disse, então, Pedro Bernardes:
"Companheiro, quando o PT tinha 16 deputados e PCdoB 4, mas tinha BASE NA RUA foi o período em que os trabalhadores mais conquistaram direitos.

O problema é que a partir de 1987 a política do partido foi COALIZÃO, COALIZÃO e mais COALIZÃO se distanciando da base e ficando a mercê desse congresso que NUNCA resolveu nada para os trabalhadores."
Peguntei a ele:
"O que a Esquerda Marxista tem a dizer sobre a construção partidária? Isso é o que eu gostaria de saber."
Bernardes disse:
"Essa é a posição da EM quanto à construção do partido Silvio Melgarejo:
'Carta Aberta ao companheiro Lula, à Presidente Dilma Rousseff e ao Diretório Nacional do PT' '"
Ao que eu lhe respondi:
"Pedro Bernardes Neto. Eu já tinha lido essa carta, reli agora, e não achei uma linha sequer tratando de construção partidária."


Uma companheira chamada Carmem Mascarenhas ponderou:
"Devemos entender que uma presidente deve governar para toda a população e não só para os que votaram nela. Dilma é bastante consciente de seu papel e está certa ao dizer que na presidência ela não representa o PT, pois seria o mesmo que dizer que só governaria para os petistas, assim como o PSDB sempre governou para a elite."
O companheiro Miranda JC, da Esquerda Marxista, retrucou:
"Ah tá, então vai governar para os ricos... também? Alguém aí acha possível governar para os ricos e pobres ao mesmo tempo?"
Em resposta a ele, compartilhei de novo a declaração que Dilma tinha dado no Twitter:
"Dilma Rousseff no Twitter: 'Eu tenho lado! O lado dos trabalhadores e das trabalhadoras deste país!'"
E disse:
"'Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado', dizia Marx em seu 18 Brumário."
Mais um outro companheiro, chamado Arthur Martinatti Penna, intervem:
"Antes da vitória, quando ela corria sério risco de perder, ela disse mesmo que estava do lado dos trabalhadores. Depois que o segundo mandato está garantido, ela chama a imprensa burguesa para garantir que não representa o PT, e vai seguir mantendo todos os compromissos com os ricos... Discurso eleitoreiro não vale!"
Eu lhe disse:
"A defesa do emprego, do salário e dos direitos sociais e trabalhistas em plena crise econômica mundial não é discurso. É fato."
Arthur prosseguiu:
"É mesmo? Só se for nos dados do governo federal, porque a própria CUT exibe dados que contestam essa tal 'defesa'."
Eu:
"Ah é? E onde estão estes dados?"
Arthur:
"Procure-os, é fácil de achar. E se você acha que os direitos sociais são defendidos, é porque nunca viveu nem trabalhou na periferia..."
Eu:
"Mostre-me. É um desafio."
Miranda JC opinou:
"Olha, sou militante do PT desde 1981 e sinceridade... A cúpula está cada vez mais a direita (o governo então nem se fale...). E como dizia o velho ditado: 'quanto mais se agacha, mais apanha'."
Eu:
"O problema é que a Esquerda Marxista é, pelo visto, tão conservadora quanto a CNB em termos de construção partidária. Omissão total. E o pior é que é esquerdista."
Miranda JC:
"E as massas sentem isso, e a perda de mais de 20% das bancadas estaduais e federais e a votação do primeiro turno são o FATO!"
Eu:
"O fato é que desemprego, arrocho salarial e cortes de direitos sociais e trabalhistas tem sido pauta de tudo quanto é manifestação que tem tido pelo mundo durante essa crise econômica. 

No Brasil, não houve um protesto sequer contra desemprego, arrocho e corte de direitos, e nenhum desses temas pode surgir no debate eleitoral, simplesmente porque o povo sabe que eles não existem. Se existissem a oposição os teria usado contra Dilma durante a disputa."


Pedro Bernardes Neto retorna ao debate dizendo:
"Romper com a burguesia é o primeiro passo para a construção partidária de qualquer partido operário. O programa de um partido é o primeiro ponto para qualquer tática de construção e a carta coloca as condições para que o PT volte a crescer."
Eu, então, lhe disse, encerrando minha participação na discussão:
"Quanto menos partido tivermos, mais dependentes ficamos da tal coalizão. 

Se o tempo que se gasta cobrando radicalidade da Dilma fosse empregado na execução de uma política radical de construção partidária, nós teríamos condições de mobilizar até 1,5 milhão de filiados que hoje estão dispersos por esse país afora, sem receber uma carta, um telefonema sequer de seus dirigentes ou de qualquer militante. 

Antes de tentarem mudar a Dilma, olhem para o partido, e vejam quanta mudança precisa ser feita para torná-lo capaz de cumprir a missão para a qual realmente foi criado, que é a luta pelo socialismo democrático.

A coalizão governamental não impede que a direção do PT e suas diversas tendências invistam na construção do partido. Se não o fazem é porque não querem. É mais fácil criticar a Dilma do que fazer auto-crítica e mudar de atitude."

terça-feira, 4 de novembro de 2014

PT deve estar preparado para enfrentar e vencer as agressões fascistas e fazer valer o seu direito à livre manifestação democrática nas ruas. Debate com Mara Rocha.

Em 3/11/2014, a companheira Mara Rocha, de São Paulo, publicou o seguinte texto no Facebook:
"As manifestações violentas da direita fascista, só afastarão cada vez mais o povão das ruas. 

Isso aconteceu no final das jornadas de junho, onde só milícias e ativistas radicais de direita e esquerda se enfrentaram,apoiados pelo submundo do crime. 

Estão lançando a isca, para ver se revidamos nas ruas, entretanto isso seria um erro,pois daria respaldo a tese de país dividido e em convulsão.

Dilma pode usar essa selvageria fascista contra eles mesmos, para convencer os deputados e senadores do perigo de um golpe, afinal o congresso é o representante da vontade popular, juntamente com o executivo.

Dar condições de governabilidade a Dilma, significa defender a democracia e as instituições. 

Com um golpe todos teriam a perder."
No mesmo dia, comentei:
"Fugir das ruas e permitir que as manifestações públicas coletivas se tornem uma exclusividade da direita, quando a direita já tem o controle da mídia, do parlamento e do judiciário seria um suicídio político para o PT e para o conjunto da esquerda.

As ruas tem que ser disputadas, sim. Nós temos que nos preparar e enfrentar essa briga ou estaremos renunciando na prática à democracia.

Porque democracia de verdade tem que ter povo na rua defendendo seus direitos. A democracia nunca foi e nunca será uma concessão da burguesia. Democracia é algo que o povo só conquista se lutar.

O sucesso do próximo governo Dilma dependerá do apoio popular que ela tiver. E o apoio popular só pode se expressar no espaço público das ruas e praças das cidades. Sem esse apoio das massas trabalhadoras o governo Dilma acabará sendo inviabilizado e até interrompido por um golpe.

Nunca, nestes 12 anos de presidência da república, foi tão vital para o PT investir na construção da governabilidade social. E isto só se faz com um partido organizado que seja capaz de atuar de forma disciplinada junto aos trabalhadores no cotidiano das ruas.

A resposta a todos os ataques que a democracia vem sofrendo por parte dos que desejam deter os avanços sociais do governo petista deve ser um investimento ainda maior no fortalecimento da democracia. E não existe nada que dê mais vigor à democracia de um país do que a participação popular no espaço público de suas ruas e praças."


Mara Rocha respondeu:
"acho que temos que ir as ruas pela reforma política, pela regulamentação da mídia, enfim dar apoio a Dilma, entretanto se formos com a intenção de enfrentar a direita, que já está nas ruas, armadas e com apoio da Mídia....creio que isso não será bom....

então ir as ruas organizadamente, para não espantar o povo em geral que está com a gente....pois se a violência comer solta...e isso a direita faz muito bem...não haverá povo, haverá apenas militantes se enfrentando e mais, nesse enfrentamento nós não estaremos armados...."
E seguimos debatendo.

SILVIO MELGAREJO
"Nós temos que ser capazes de garantir o nosso espaço nas ruas. Ou então deixaremos de ser o PT. 

Se a direita vier nos agredir, temos que estar preparados para defender nossas integridades físicas e o nosso direito à livre manifestação democrática. 

Não podemos de maneira nenhuma ceder a essas tentativas de intimidação, porque é isso mesmo que os fascistas querem, que o PT tenha medo de ir prás ruas encontrar com o povo.

Imagine se o PT tivesse se acovardado nos anos 80 ante as agressões das gangues malufistas."
MARA ROCHA
"eles já deram um panorama do que são capazes nas manifestações de junho.....creio que uma vez nas ruas, precisa ser muito organizada e sem infiltrações.....se houver violência e revide de nossa parte, perderemos a razão e seremos massacrados pela mídia.

sou totalmente contra o revide, temos que organizar as manifestações de forma muito racional e responsável, não podemos dar tiro no nosso próprio pé."
SILVIO MELGAREJO
"Perderemos a razão se a violência partir de nós. O que você propõe é que renunciemos à autodefesa."
MARA ROCHA
"vc sabe que para a mídia,,,a verdade não importa."
SILVIO MELGAREJO
"O PT nasceu e cresceu lutando nas ruas tendo a mídia, o judiciário e o parlamento contra si. Isso não é nenhuma novidade.

Nós hoje temos até mais mídia do que lá no começo.

Temos a internet.

Podemos gravar tudo e divulgar.

O que não podemos é deixar que o medo nos paralise."
MARA ROCHA
"santa ingenuidade Silvio Melgarejo, a correlação de forças não é a mesma....temos que ter capacidade de analisar ontem e o agora...."
SILVIO MELGAREJO
"Sim, não é a mesma. É melhor. O PT nasceu durante uma ditadura militar, lembra?"
MARA ROCHA
"NÃO É A MESMA COISA.....nem pior nem melhor....é mais complexa. vamos parar de tolices."
SILVIO MELGAREJO
"O PT tem hoje mais de 1,5 milhão de filiados.

Tolice?

Que é isso?"
MARA ROCHA
"sim. a maioria não vai para o enfrentamento meu caro."
SILVIO MELGAREJO
"Partiu para o adjetivo, é porque faltou argumento."
MARA ROCHA
"nem vai pegar em armas....rsrsrs"
SILVIO MELGAREJO
"Ninguém falou em pegar em armas. Alguém já deu algum tiro?"
MARA ROCHA
"cai na real meu filho...não vivemos numa ditadura, temos que atuar segundo a democracia."
SILVIO MELGAREJO
"MINHA FILHA, CALMINHA."
MARA ROCHA
"com inteligência e racionalidade...não vamos enfrentar fascistas!"
SILVIO MELGAREJO
"É isso que estou propondo. Atuar numa democracia que está sob ameaça."
MARA ROCHA
"não vamos colocar em risco com nossa audácia tola, o governo que lutamos para eleger."
SILVIO MELGAREJO
"Elegemos porque fomos prá rua. Foi uma audácia tola? Mas deu resultado."
MARA ROCHA
"ir para rua para fazer campanha é muito diferente de ir pra rua pra manifestar e apoiar Dilma. Isso exige muita responsabilidade."
SILVIO MELGAREJO
"Sem povo na rua esse governo não será capaz de cumprir os compromissos assumidos durante a campanha.

Qualquer ação política exige responsabilidade.
MARA ROCHA
"Acho que só existe uma saída, para colocar muito povo na rua.....organização...

e tem que ter muita gente...uma gente bem consciente do que fará nas ruas...e sem aceitar provocações e infiltrados. 

Isso é possível... se houver disposição das lideranças. 

Meia dúzia de gatos pingados não surtirá efeito algum...então tem que ter organização da base das lideranças... do contrário é vexame na certa."
SILVIO MELGAREJO
"É exatamente isso que proponho.
RESOLUÇÃO DO 5º ENCONTRO NACIONAL DO PT - 1987
'Precisamos de um partido organizado e militante, o que implica a necessidade de quadros organizadores. 
Um partido que seja de massas porque organizará milhares, centenas de milhares ou até milhões de trabalhadores ativos nos movimentos sociais, e porque será uma referência para os trabalhadores e a maioria do povo.'"