No dia 14 de agosto, eu publiquei um texto intitulado "Vai ter golpe militar ou não vai?", dizendo que: "a evidente inviabilidade de uma ditadura estável e duradoura torna o golpe um projeto de altíssimo risco para os seus agentes" e que "esse risco alto de derrota é que possivelmente provoca a rejeição de uma parte das lideranças militares à ideia da ruptura". Dizia eu nesse meu texto que "Bolsonaro e os militares sabem que estão isolados, por isso pedem socorro ao Centrão" e que "ao fazê-lo revelam que nesse momento preferem evitar o golpe, pela falta de unidade das próprias lideranças militares, provocada exatamente pela expectativa da reação que preveem da sociedade". Sem descartar a hipótese mais improvável, eu dizia "podem até tentá-lo como medida extrema de desespero", "mas com certeza a derrota é o resultado mais provável que podem colher".
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
Sete de setembro de 21: o dia em que o projeto bolsonarista de quartelada e ditadura foi sepultado
No dia 14 de agosto, eu publiquei um texto intitulado "Vai ter golpe militar ou não vai?", dizendo que: "a evidente inviabilidade de uma ditadura estável e duradoura torna o golpe um projeto de altíssimo risco para os seus agentes" e que "esse risco alto de derrota é que possivelmente provoca a rejeição de uma parte das lideranças militares à ideia da ruptura". Dizia eu nesse meu texto que "Bolsonaro e os militares sabem que estão isolados, por isso pedem socorro ao Centrão" e que "ao fazê-lo revelam que nesse momento preferem evitar o golpe, pela falta de unidade das próprias lideranças militares, provocada exatamente pela expectativa da reação que preveem da sociedade". Sem descartar a hipótese mais improvável, eu dizia "podem até tentá-lo como medida extrema de desespero", "mas com certeza a derrota é o resultado mais provável que podem colher".
sexta-feira, 31 de dezembro de 2021
Vice do Lula deve ser Dilma
Para que serve um vice-presidente? Para prestigiar uma força política que se pretende ter como aliada numa eleição presidencial, sem dar-lhe poder para influenciar nos rumos do governo, já que se diz que o vice é figura decorativa, que não governa e portanto não serve pra nada?
Não. A importância do cargo de vice-presidente não pode ser tão subestimada, isto é um erro que já nos custou muito caro, não esqueçamos a experiência com Temer. Para que serve um vice?
O vice-presidente serve para substituir o presidente em suas ausências provisórias ou permanente, mantendo o funcionamento do governo de acordo com o programa defendido na campanha da eleição em que saíram vitoriosos.
Ou seja, o vice-presidente deve concordar com o programa de governo defendido pelo presidente e ambos devem assumir perante o povo o compromisso de cumprir esse programa, sem desviarem-se das suas diretrizes fundamentais.
O que acontece quando o vice-presidente não concorda com o programa defendido pelo presidente e sim com o programa de uma oposição golpista? Acontece o que aconteceu no governo Dilma. O próprio Michel Temer disse em entrevista que ela foi derrubada porque não aceitou adotar o programa Ponte Para o Futuro, que ele passou a implementar quando assumiu a presidência e que Bolsonaro tem dado continuidade. O programa Ponte Para o Futuro é um programa neoliberal.
Que características deve, então, ter o vice de Lula? Tem que ter afinidade política com o presidente, deve ser leal ao presidente e deve ter o compromisso de auxiliar o presidente na realização do seu programa de governo e dar sequência à realização desse mesmo programa, sem interrupções e sem desvios, sempre que o presidente tiver que se ausentar ou quando por qualquer motivo ele ficar impedido de exercer o cargo para o qual foi eleito.
Estou convicto de que Alckmin não tem essas características, mas que a ex-presidente Dilma as tem de sobra, por isso defendo o seu nome para o cargo de vice do futuro presidente Lula.
A ideia de lançar Dilma para vice me veio quando percebi que há um movimento dentro do PT para responsabilizar apenas ela pelo golpe que sofreu, afastá-la de Lula e jogá-la no esquecimento, tudo para não constranger os golpistas com quem algumas lideranças do partido desejam fazer aliança.
Para haver aliança com os golpistas é preciso fingir que não houve golpe e para tanto é preciso sumir com a Dilma do mapa, já que a simples presença dela lembra a história que querem apagar.
A eleição de Lula com Dilma de vice seria a derrota total do golpe, uma vitória em dobro do povo, da justiça e da democracia.
Simbolizaria ao mesmo tempo a retomada de um projeto virtuoso que foi abortado, o desagravo à presidente injustiçada, que foi vítima da ignomínia imposta pelos usurpadores do seu mandato e a independência do novo governo em relação à direita neoliberal, antidemocrática e pró-imperialista.
Não subestimo os erros que ela cometeu enquanto presidente, que indiscutivelmente facilitaram o assalto golpista. Mas estou certo que ela tirou lições da experiência que teve e que deve estar ainda mais preparada para exercer a presidência. É a vice ideal para o Lula. Por isso, defendo desde já o seu nome.
Para olhar o futuro sem esquecer o passado, a vice-presidente de Lula deve ser Dilma Rousseff.
Toda conciliação de classes limita a transformação social em favor dos trabalhadores
Quanto menos se percebe e entende as diferenças fundamentais entre os políticos e partidos de esquerda e direita, mais tende-se a acreditar que elas podem ser facilmente superadas em favor do bem comum, como muitos desejam. Quando se ignora que o antagonismo entre esquerda e direita é a expressão política do antagonismo entre os interesses de uma classe social pobre, explorada e oprimida e os interesses da classe social rica que a explora e oprime, tende-se a acreditar ser possível a conciliação da esquerda com a direita em torno de um projeto comum que não traga ainda mais prejuízos para os perdedores de sempre e ainda mais vantagens para os que sempre ganharam muito.
Esquerda de verdade é aquela que defende intransigentemente os interesses do povo, sem admitir nenhuma perda a mais para o povo e exigindo sempre mais e o melhor para o povo. Esquerda de verdade é aquela movida pela convicção de que não é admissível, por não ser justo, impor aos pobres mais perdas e conceder aos ricos mais ganhos, é aquela movida pela convicção de que não é admissível, porque não é justo uma minoria gozar os mais infames privilégios enquanto a imensa maioria padece as piores agruras. A esquerda, que historicamente representa os pobres, não tem o direito de, em nome deles, renunciar a mais nada; a direita, que representa os ricos, é quem tem que ceder, e ceder muito, para que haja justiça.
Os ricos e a direita reclamam do conflito intenso que tem tido com a esquerda na sociedade. Chamam esse conflito de polarização e dizem que a polarização faz mal ao país e por isso precisa cessar. Mas não é a polarização que faz mal ao país, o que faz mal ao país é a injustiça social, que é a causa e o alimento da polarização. Ponha-se fim à injustiça social e a polarização imediatamente termina.
A polarização entre esquerda e direita é na verdade a expressão política da tensão que existe entre a necessidade urgente dos pobres e a ganância impiedosa dos ricos. A esquerda considera que a riqueza produzida pela sociedade deve beneficiar a todos e não apenas a uma minoria, que essa riqueza coletivamente produzida não pode ficar concentrada nas mãos de alguns poucos, que ela precisa ser distribuída por toda a sociedade, para que haja o bem comum. Acabar com a polarização política significaria ignorar o antagonismo realmente existente entre as classes na sociedade, conservando a situação que penaliza uma delas, a classe trabalhadora.
Deixa de ser esquerda quem não polariza com a direita, quem busca a conciliação com a direita e evita o conflito, quem baixa a tensão com a direita e aceita os piores acordos para os trabalhadores. Porque o que define realmente a esquerda é exatamente a intransigência na defesa da justiça social em favor dos mais pobres. Não é de esquerda quem não tem essa atitude inflexível, quem tolera a injustiça social e não a combate com vigor e constância, quem faz pactos conservadores dos privilégios dos ricos e das carências dos pobres.
A direita só faz acordo com a esquerda quando o acordo favorece aos ricos, que ela historicamente representa. De modo que toda aliança entre esquerda e direita implica obrigatoriamente num rebaixamento das metas do programa de governo da esquerda, com prejuízo para a luta por uma justa distribuição da riqueza e consequentemente para a expectativa de melhoria de vida dos pobres.
É isso que precisa ser compreendido pela militância de esquerda no Brasil, para que ela não acredite mais nas promessas de quem prega a conciliação entre as classes, entre oprimidos e opressores, entre explorados e exploradores. Porque essa conciliação é, na verdade, conservadora da exploração e da opressão e, portanto, conservadora da injustiça social que a esquerda tem o dever de combater.
Os pobres não podem e a esquerda, em nome deles, não deve renunciar a mais nada, a nenhum direito e a nenhuma vantagem que corrija a injustiça que eles sofrem desde que nascem; os ricos é que podem e a direita é que deve, em nome deles, ceder, para que haja justiça.
Polarização significa confrontação. Pois sigamos, nós da esquerda, confrontando a direita, polarizando com ela, com cada vez mais audácia e vigor, porque só vencendo a direita é que será realmente possível transformar a sociedade injusta em que vivemos na sociedade justa que almejamos.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Alckmin não é Alencar
ALCKMIN NÃO É ALENCAR (I)
ALCKMIN NÃO É ALENCAR (II)
ALCKMIN NÃO É ALENCAR (III)
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
Em defesa da frente de esquerda. Comentário sobre um texto de Igor Fuser
(comentário sobre um texto do companheiro Igor Fuser, no Facebook, que reproduzo ao final deste post)
Igor Fuser. Você acha que a política econômica vigente desde o golpe tem sido esse desastre para o povo que estamos vendo porque está conceitualmente errada, como diz a esquerda, ou porque tem sido mal executada, como diz a centro direita? Indo direto ao ponto: essa política precisa ser radicalmente mudada, como diz a esquerda, ou só precisa de uma melhor gestão, como diz a centro direita?
Não sei se você sabe, mas, segundo o site Congresso em Foco, os partidos da centro direita votaram a favor do governo Bolsonaro em mais de 80% das votações do Congresso. Você tem alguma dúvida de que estes partidos apoiam integralmente a política econômica que estamos tendo desde Michel Temer? Tem alguma dúvida de que o golpe de Estado foi dado exatamente para impor ao povo essa política que o povo já havia rejeitado nas quatro eleições presidenciais que o antecederam? E você não lembra quem foi contra e quem foi a favor desse golpe de Estado? Só os partidos de esquerda, PT, PSOL e PCdoB, votaram integralmente contra o impeachment de Dilma, todos os demais votaram total ou parcialmente a favor de derrubá-la. E quem liderou a operação golpista ostentando o programa de governo que pretendia implementar quando assumisse a presidência, substituindo a mandatária legítima? Foi a extrema direita, com Bolsonaro? Não, foi a centro direita, com Michel Temer. E o nome do programa que eles anunciaram com pompa e circunstância, antes mesmo de o golpe ser consumado, era Ponte para o Futuro. Não lembra disso, Igor Fuser?
O governo Temer foi um governo de centro direita - basta ver de que partidos eram os seus ministros - que, no fundamental, que é a política econômica, teve continuidade no atual governo. O próprio Temer diz isso. Numa entrevista ao site da BBC, de 22 de julho de 2019, ele diz: 'O governo Bolsonaro vai bem porque está dando sequência ao meu'. E está dando sequência mesmo. A política de preços da Petrobras, por exemplo, que é tão criticada hoje, é obra do tucano Pedro Parente, que foi nomeado presidente da empresa pelo usurpador, logo que ele sentou na cadeira de presidente da república. E foi exatamente para dar sequência à execução do programa Ponte para o Futuro que o governo Bolsonaro teve até agora o apoio dos partidos da centro direita, que lideraram o golpe e governaram com Temer, em mais de 80% das votações do Congresso.
A pergunta que te faço, Igor Fuser, é muito simples. A centro direita renunciou ao programa Ponte para o Futuro? Essa resposta é importante porque ela determina o que seria um governo Lula em aliança com a centro direita, se seria um governo de mudança ou um governo de continuidade. Você certamente dirá, como todo bom centrista, que precisamos encontrar os pontos de convergência entre a esquerda e a centro direita, como se antagonismo houvesse entre elas apenas quanto a questões secundárias e não nas fundamentais. Então me diga: O que é, para você, fundamental e o que é secundário num programa de governo? Que pontos do programa da centro direita, chamado Ponte para o Futuro, a esquerda pode assimilar em seu próprio programa sem estar traindo a classe trabalhadora e atentando contra a soberania nacional? E que pontos do programa da esquerda você acha que podem ser sacrificados para agradar à centro direita e viabilizar um acordo entre ambas sem, da mesma forma, estar traindo a classe trabalhadora e atentando contra a soberania nacional? Que parte, afinal, do neoliberalismo você acha que não é lesiva aos interesses nacionais e populares e por isso a esquerda pode admitir no seu programa?
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TEXTO COMENTADO, DE IGOR FUSER
Reflexão destinada a quem pensa seriamente em VENCER a dura parada política que temos pela frente em 2022:
A esquerda é, e sempre foi, minoria no Brasil, claramente minoria.
Quando amplia sua capacidade de influência política, em sintonia com o sentimento popular e em aliança com outros setores democráticos, a esquerda cresce e, em geral, vence.
Quando estreita o alcance de suas propostas, encarando a luta política no espartilho esquerda x direita, fica encurralada no seu próprio gueto e, inevitavelmente... perde.
Se o bloco político e social que se articula em torno da candidatura Lula quiser ser vitorioso na luta contra o fascismo (um monstro com duas cabeças, o genocida e o juiz-ladrão), deve evitar a armadilha fatal da "frente de esquerda".
Para ganhar a eleição, a esquerda deve (sem perder o rumo de uma campanha enfocada, obviamente, no combate à fome e em defesa das condições materiais de vida da maioria dos brasileiros)
ampliar a candidatura Lula em direção à centro-esquerda, ao centro e até mesmo a setores da centro-direita.
Este é o caminho, aliás, que o próprio Lula parece disposto a trilhar, com muita sabedoria.
(Reflexão inspirada em post de João Franzin, que você poderá ler no espaço dos comentários.)
https://web.facebook.com/igor.fuser.9/posts/10225338317220804
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
A esquerda e o poder ilusório do direito
Quem realmente ameaça as liberdades democráticas no Brasil não é Bolsonaro e sim as forças armadas e as polícias, sem cujo apoio ele seria inofensivo e muito provavelmente já teria sido apeado do governo. Bolsonaro e a extrema direita civil só parecem tão perigosos, afrontando a sociedade e as próprias instituições do Estado com uma retórica tão agressiva e ameaçadora, porque têm atrás de si os militares e as polícias. Pois são estes que formam efetivamente o braço armado da extrema direita brasileira.
E não é de hoje que cumprem esse papel, já o fazem desde a monarquia, esse desvio de função não é invenção de Bolsonaro nem os militares e policiais são inocentes úteis aos propósitos nefastos do presidente. Essa gente faz parte da extrema direita e apenas usa Bolsonaro para vocalizar o que pensa e quer. Se eles retiram o apoio que dão, Bolsonaro cai, porque a extrema direita civil não tem força suficiente para sustentá-lo e não atemoriza nem o Congresso e nem o Supremo. Tanto que vários bolsonaristas civis já foram presos, mas militar de alta patente, nenhum, os desmandos se sucedem e ninguém tem coragem de encarcerá-los porque ninguém tem força para contê-los.
Quem tem a caneta tem o poder de direito, mas poder de fato têm mesmo os que andam armados. Por isso é a estes que a esquerda e a classe trabalhadora precisam se impor para garantir suas liberdades políticas e conquistar o comando do Estado, que é a condição para haver democracia. Mas como impor-se a uma força armada hostil por meios pacíficos, como pretende a maior parte da esquerda? Creio, sinceramente, não ser possível, estamos a cultivar ilusões.
terça-feira, 7 de setembro de 2021
O pacifismo é aliado da opressão e inimigo da justiça
O jornalista republicano Aristides Lobo despediu-se dos seus leitores, para assumir um cargo no governo provisório instalado, com uma carta em que descreve o que testemunhara. Disse ele: “Por ora, a cor do governo é puramente militar, e devera ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada”. A república no Brasil foi fundada por um golpe militar e os militares impuseram-se à sociedade brasileira como seus eternos tutores. Suas presenças nas disputas políticas foram desde então permanentes, de forma às vezes mais, às vezes menos ostensiva. A história da república tem sido uma sucessão de golpes e ditaduras militares, intercaladas por breves períodos de regimes constitucionais, nunca inteiramente livres de ameaças de mais golpes e ditaduras. Estamos vendo neste 7 de setembro a história se repetir, não menos perplexos e impotentes do que os brasileiros das gerações passadas.
Tornou-se afinal insustentável esse relacionamento verdadeiramente abusivo que tem sido mantido por de mais um século entre a sociedade civil e a sociedade militar no Brasil. É preciso reconhecer antes de tudo que abuso de poder só existe em relações sociais onde há desequilíbrio acentuado de poder e que uma sociedade civil desorganizada e desarmada estará sempre inevitavelmente sujeita a abusos da sociedade militar, por natureza armada e organizada. Ocorre que numa sociedade capitalista, as forças armadas do Estado não servem aos interesses da nação e sim aos da classe rica que comanda o Estado, chamada burguesia. É a esta minoria rica que os militares sempre serviram e sempre servirão no capitalismo. As forças armadas do Brasil são na verdade forças mercenárias a serviço de quem pode lhes pagar o maior soldo. O patriotismo apregoado por seus comandantes não passa de uma fachada ideológica destinada a ocultar interesses vis e compromissos espúrios, que a prática deles acaba por revelar. Não é contra a minoria rica da sociedade civil que a sociedade militar comete abusos, é sempre contra a maioria pobre, que padece indefesa exatamente por não ter organização e armas.
A esquerda brasileira precisa entender que abuso de poder haverá enquanto houver tão acentuado desequilíbrio de forças entre uma sociedade militar organizada, disciplinada e armada e uma sociedade civil desorganizada, indisciplinada e desarmada. Armas, organização e disciplina são as bases fundamentais do poder real ou poder de fato dos aparatos de defesa e segurança do Estado, mas também do narcotráfico e das quadrilhas de extorsionários que tem sido chamadas de milícias. Este poder de fato que afronta quando quer o poder de direito das próprias instituições do Estado comandado pelos ricos e que é exercido permanentemente de forma severa e cruel sobre as populações mais pobres, só pode ser contido por meios iguais aos que emprega, não há outra forma de defesa contra eles e não há outra forma de desencorajar os seus ímpetos covardes e autoritários. Não se logrará conquistar o seu respeito a limites legais e morais sem mostrar capacidade de usar com maestria as mesmas técnicas e instrumentos de guerra que eles dominam.
Uma ação de guerra só pode ser neutralizada por outra ação de guerra. Quando e enquanto esta reação não ocorre estabelece-se uma relação de opressão, em que o agredido é subjugado pelo agressor. Como não há combate, confrontação de forças e hostilidades mútuas, configura-se uma situação de paz. Mas será uma paz assim desejável para quem é vítima da opressão e para quem tem apreço pela justiça? Será a justiça um valor menor do que a paz, a ponto de se prescindir dela para evitar um conflito? Seria correto sacrificar a justiça, consentir e compactuar com a injustiça, a pretexto de manter a paz? Evidentemente que não, por isso há tantos conflitos sociais. O oprimido revolta-se porque sofre e o justo revolta-se porque do oprimido se compadece.
A guerra é como uma febre intensa que acomete as sociedades, sendo como toda febre efeito da reação orgânica à doença e sendo este efeito percebido como sintoma do mal que o provoca. E a despeito do que desejam todos quantos têm apreço pela paz, ainda há muita opressão e injustiça no mundo a que só as guerras podem dar fim, ainda que ao preço de muita dor, mal estar e prejuízos. A justiça é o bem maior para o justo. Pela justiça o justo encara todos os riscos e submete-se a todo sacrifício, até mesmo o sacrifício da própria vida. A justiça, para o injustiçado e para o justo, vale mais do que a paz. Sem justiça, a paz nada mais é do que opressão sem resistência. Quando há resistência há guerra, que os pacifistas querem evitar a todo custo, admitindo até mesmo o sacrifício da justiça.
O pacifismo é objetivamente aliado da opressão e inimigo da justiça. Porque nem toda paz é justa e libertadora assim como nem toda guerra é injusta e opressora. A paz pode ser e é frequentemente injusta e opressora enquanto a guerra é que muitas vezes se mostra justa e libertadora. Porque em toda relação humana de opressão há um oprimido que tem o direito de reagir e lutar por liberdade e porque em toda relação humana injusta há um injustiçado que tem o direito de reagir e lutar por justiça e um justo que acredita ser seu dever lhe ser solidário.
O pacifismo predominante na esquerda brasileira está na raiz das ilusões que ela mantém quanto às disposições democráticas e pacíficas da direita e dos ricos e quanto ao caráter democrático e pacífico das instituições do Estado que a direita e os ricos comandam. Os ricos e a direita não são pacifistas nem democratas, são autoritários e belicosos. Por isso quando a esquerda alimenta a mente dos pobres com as suas tolas e perigosas ilusões na falsa democracia comandada pelos ricos e pela direita ela está contribuindo para manter os pobres mentalmente indefesos contra as mistificações e trapaças da direita e dos ricos. E quando a esquerda alimenta o pacifismo dos pobres ela está contribuindo para mantê-los fisicamente indefesos frente ao poder organizado e armado dos ricos, sendo os pobres pelos ricos facilmente subjugados em razão desse despreparo que os torna impotentes, a despeito de serem bem mais numerosos.
Nas horas que antecederam aos atos golpistas convocados por Bolsonaro, o medo da militância de esquerda era indisfarçável e justificado. Não temos mesmo a massa trabalhadora conosco, porque não a mobilizamos, ocupados que estávamos analisando pesquisas e articulando alianças para uma eleição que nem sabemos se haverá. E não nos preparamos, nem mentalmente nem materialmente, para o tipo de combate que a luta contra o fascismo requer, porque aprendemos com nossas lideranças que a única forma de disputa política legítima é a que vale-se de meios pacíficos. Aprendemos que toda violência é condenável, mesmo quando usada para a autodefesa; rejeitamos, consequentemente, a violência e recusamos qualquer proposta de preparação para o seu emprego com fins defensivos. De repente surge uma ameaça de agressão e não sabemos o que fazer.
Por isso é que vamos hoje para as ruas torcendo para que os generais, juízes e governadores da direita não bolsonarista ainda tenham alguma autoridade sobre o exército e as polícias, para nos protegerem de agressões e derrotarem o golpe de Estado anunciado. Não temos força própria para resistir e a consciência dessa impotência é que nos faz sentir inseguros. Nossa liberdade e integridade física estão a depender não de aliados mas de inimigos. E chegamos a tal situação pelas decisões equivocadas que tomamos, determinadas pelas ilusões que alimentamos em razão da nossa opção pacifista.
Já é hora da esquerda brasileira refletir sobre esse pacifismo que tanto a fragiliza perante a direita. Porque sem disposição e preparação para a guerra, a derrota, a opressão e o martírio serão sempre inevitáveis. Não basta estar do lado certo da história, é preciso vencer guerras e só vence guerra quem usa os meios mais eficazes para alcançar os seus fins, sem restrições de natureza moral. A menos que o objetivo maior não seja a transformação da sociedade e sim o conforto de uma consciência adormecida e indiferente pelos males decorrentes da sua omissão. O que mais quer a militância de esquerda, qual é o seu maior objetivo? É a justiça mesmo ou é só um lugar no Céu?
7/9/2021
